sexta-feira, 11 de setembro de 2015
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Coloquei saia e casaco cor púrpura a seguir a uma blusa de seda
imaculadamente branca. Olhei-me no espelho dando um toque no cabelo que se
desalinhara e retoquei, com bâton,
a linha correta dos lábios que me realçou a minha feminilidade. Dirigi-me ao
elevador e entrei no carro a caminho do Sheraton, onde começava o turno da
tarde, depois de umas reconfortantes férias.
Roma era uma cidade de encantos e recantos românticos e sentia-me
sempre bem em voltar a casa.
O frenesim do telefone (re)começou; os hóspedes não paravam de
chegar; as crianças lançavam no ar gargalhadas...
Triiiiiiiiiiim...Triiiiiiiiiiiiiim...
-Estou, sim. Hotel Sheraton, boa tarde!
- Quarto 505. Quando é que trazem a champagne pedida há cinco minutos?
“Quarto 505? Há cinco minutos? Quem será que está tão frenético
que não pode esperar?
Verifiquei na plataforma o utente e...meu Deus! A banda de rock...
a melhor banda do momento está hospedada na suite 505...”
- Um
momento, por favor. Ser-lhe-á enviada imediatamente. Peço desculpa pelo atraso.
-
Trimmmmmm...
- Hotel
Sheraton, boa tarde! (...)
- 505, novamente.
Queríamos uma toalha de banho, uns chinelos de quarto cor de rosa, e espuma de banho.
- (...?...)
Sim. Enviarei imediatamente.
- Hotel Sheraton, boa tarde! (...)
Uma voz estridente fez-se ouvir do outro lado do telefone.
-
Quero uma limousine para nos levar ao centro da cidade, máscara venezianas,
casacos de vison... Sairemos assim
que nos entregarem o pedido.
-
Tentarei satisfazer o seu pedido. As máscaras venezianas, poderão ser substituídas por máscaras romanas?
-
Claro que não! Têm de ser de
Veneza.
-Terá
de compreender que é deveras um pedido demasiado bizarro..., mas tentarei
satisfazê-lo.
Desliguei.
Estava irritada com tais exigências. Pedi ao meu colega que me substituísse e
tratei de ser eu mesma a recolher todos os “desejos” daquela banda louca.
Bati
na porta da suite 505; entreguei um pacote embrulhado em papel de manteiga com
um laço feito de cordel.
-
O seu pedido. O veículo está estacionado na frente do hotel. Quando quiser é só
descer. E não admito reclamações – disse com voz melada a tender para
malcriada.
A
banda desceu. As máscaras de papel
recortado de revistas e os casacos multicolores adquiridos nos perdidos e achados
do hotel fizeram a diferença. Ninguém reparou que estava a sair a melhor banda
de rock do momento. O Fiat seiscentos que os esperava arrancou e mais tarde o
espetáculo começou.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
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Maria Arménia
Madail da Silva_2015
- Que aconteceria se eu
licitasse?
- Queres saber? Salta e logo
verás.
- Que pensas? Crês que não sou
capaz? E é já! Aquela peça faz-me lembrar alguém e – imagina só - deixa-me
excitado e sem medos.
- O preço é alto! Cuidado!
“- Dois milhões, um; dois
milhões, dois; ... dois milhões...três!
Aquela peça fez turbilhões na
minha mente: de onde a conheço? As sombras das mulheres que passaram na minha
vida desfilaram na escuridão dos meus sentidos. Uma delas parou um instante na minha frente: silhueta de uma
adolescente com um corpo já perfeito; seios a apontar; cabelos lisos e revoltos
num vento que não se fazia sentir; silhueta de vestido esvoaçante e
transparente oferecendo um sim; silhueta que me deixou entrar e eu entrei: no
seu corpo...;
- ...?
- ...
- Então? Estás louco?
...na mão ... na mão...
- A peça em leilão vai para o Dr.
Carlos Armand! Parabéns!
-...? Para mim? Não! O gesto foi irrefletido. Gostaria imenso de a
adquirir, mas não. Não tenho esse valor!
“Meu Deus! Deixei-me envolver
entre uma hora e outra e deixei o relógio parar.”- pensou em voz alta.
- Sim, é verdade! - sussurrou uma voz na sua orelha! –
Assumo a licitação. A peça será minha.
Parei no rescaldo da
convalescença da NOSSA pequena história: o primeiro encontro, o primeiro toque,
o primeiro beijo e a caixinha de música de porcelana que caiu da sua mão e mergulhou silenciosamente
no lago e lá ficou esquecida!
Olhei para trás e vi uma senhora
de cabelos grisalhos e um olhar cor do céu. Quem será? Quem quis ficar com
aquela peça, também? Não. Não pode ser! Ela já morreu...
_ Carlos! Estás bem?
- ...???
- Carlos!!!
- Viste? Era ela! Era ela! A
Susana! A que pagou a minha licitação! Onde se escondeu?
- Não, Carlos! Muito parecida,
mas muito mais jovem...
Maria Arménia Madail da Silva 2015
Os olhos poisaram naquela esfinge, seminua, que o convidou,
languidamente, a penetrá-la.
Era ela! Eu sabia que a encontraria.
O entrar sentido naquela que o fascinava há longos sonhos. A
mão frenética e faminta de carícias puxou-o tornando-o em si.
Senti dentro, aquilo que sentira fora, mas de uma maneira
tão turbulenta que deixei o meu coração saltar. O toque frio colado no meu
corpo foi aquecendo com o ar cálido dos lábios que começaram uma viagem
vertiginosa até ao meu ínfimo sentimento de homem em estado de êxtase.
Mãos, pernas, cabelos emaranhados, sexos copulados
deleitaram-se horas e horas num, vários orgasmos de cumplicidades perdidas nos
tempos. A metamorfose dera-se. A
permanência no irreal parecia real. A avidez de entrelaçar os dedos nos dedos,
a boca na boca, a mistura de salivas e o saborear de um e de outro durou eternos
amores.
Queria sair. Estava exausto. Sentia-me devorado. O meu corpo
desfazia-se em pequenos pontos cintilantes, a minha cabeça deixava-se levar e
eu queria sair. Os seios rígidos da estátua roçavam os meus lábios já secos e
sentia-os agora a entrar na minha boca. Mais um aiiiiiii! Mais um orgasmo!
“ O museu encerra dentro de cinco minutos. Agradecemos que
comecem a dirigir-se à porta de saída. Obrigada.”
A voz sonora despertou o encanto da visão de Afrodite de
Cápua.
Sorri! Dirigi-me à saída do Museu Arqueológico de Nápoles.
Maria Arménia Madail da Silva - 2015
Cheguei já eram cinco da tarde. Tarde sombria e carregada de um nevoeiro que
mal dava para ver o mausoléu. Passos decisivos aproximaram-me de uma laje com
uma foto esbatida.
Tinha acontecido há quarenta anos atrás, era um jovem
apaixonado por bailado e nesse dia tinha adquirido bilhete para ver a companhia
de bailado de Nevesk: O Lago dos Cisnes. Sentara-me na plateia e deslumbrado assisti ao espetáculo. O
encanto daquela linguagem gestual fazia-me sentir leve e transportado para o
limbo das minhas recordações: outrora fora um bailarino de sucesso, mas uma
doença rara roubara-me esse sonho. A meu lado ouvi “ Esta é a bailarina que trocou o marido
quando soube que ele não podia voltar a dançar? - Sim. Shiiiiiiu!”
O quarto ato
decorria ao som da música de Tchaikovsky
e Siegfried envolvia, num
prenúncio de morte, o grito de Odette, um amor além da vida. O corpo contorcido
em dor deixou-se embrulhar em forma de cisne e uma corrente lenta de sangue deslizou, lentamente, pelo braço
alvo de Odette. Siegfried sentiu o peso daquele corpo frágil e depositou-o no
chão. O público extasiado com a veracidade daquela dança - cisne enlouquecido e em desespero
por um amor proibido – aplaudiu de pé e em ovação.
Senti-me reconfortado. Regressei a casa.
Aquela foto lapidada na pedra marmórea perdia a cor. Os olhos plúmbeos, baços e lacrimejantes
não desapareciam. Teimavam em não desaparecer. Todos os anos. E todos os anos
me dirigia lá procurando uma resposta naquele olhar. Porquê?
No dia seguinte os jornais revelavam que a protagonista do
Lago dos Cisnes tinha sido alvejada com um tiro silencioso vindo da plateia.
Que perda!
E os olhos daquela foto que teimavam em não desaparecer
deixaram cair uma gotícula ensanguentada.
Pousei a tulipa negra junto da foto. Dei meia volta e
regressei ao carro com um sorriso de escárnio: “Porquê?
Maria Arménia Madail da Silva - 2015
Naquele quarto cheio de uma penumbra que se fazia permanecer há já dois dias, Cármen
respirou os odores entranhados na sua pele. Sentou-se no meio da cama e começou
a calçar as meias de vidro, numa languidez sonâmbula. O braço direito
dirigiu-se à nuca, cerrou as pálpebras e sentiu, de novo, o perfume almiscarado
e a sua mente recuou.
Há anos que sonhava com aquele encontro, seria o encontro
da sua vida. Ele tinha anuído no dia em que a encontrou, casualmente, na
avenida Oudinout, Já não se viam desde o tempo da faculdade. Ambos tinham
seguido o seu caminho.
O encontro que começou por ser formal passou, passados uns
minutos, a ser um encontro de loucuras lascivas e beijaram-se sem nada dizerem.
Aconteceu. E queriam ir mais longe.
E há dois dias que se haviam fechado naquele quarto de hotel e se tinham
amado. Desde a rapidez do tirar das roupas, ao impulso de uma necessidade ávida
de se tatearem até ao orgasmo apressado – a primeira vez. Depois foi um
descobrir de um e de outro. As bocas minguavam as suas línguas, as mãos
procuravam sítios desconhecidos, os corpos molhados entrelaçavam-se como ramos
fustigados por tempestades. A respiração era entrecortada por sons de prazer e o quarto cheio de penumbra era a
única testemunha deste encontro.
Calçou um sapato e depois o outro. Sorriu. Olhou o espelho
e a sua imagem refletiu um esgar de tristeza. Uma sombra pairou sobre o seu
semblante. Desviou o olhar do espelho, vestiu-se e saiu apressadamente daquele
lugar. Atabalhoadamente remexeu na carteira e tirou as chaves do carro e acelerou
até àquela praia onde se sentia em harmonia.
Deixou-se ficar no carro a olhar no vazio daquele imenso
horizonte onde o sol pálido ia descaindo. As lágrimas caíram-lhe.
Ela suspirou . Anos a sonhar com aquele encontro. Encontro
que nunca aconteceu.
Amor platónico?
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Cinco dedos, cinco pincéis, cinco deuses.
Uma virgem.
A página esbranquiçada foi iluminada por Ártemis
e Zeus saiu do polegar penetrando Hera que se lhe oferecia seminua, no médio;
Ares gerou-se no ventre do anelar e sentiu o maior prazer em apreciar a dor do
parto.
Tranquilamente, o indicador deslizou num
traço só e Apolo iluminou a madrugada repleta de odores lascivos , embrulhados
no corpo de uma Afrodite que uivava, num dedo minúsculo, de prazer.
Os cinco pincéis lutavam, numa fúria
desordenada, lançando tintas multicolores, com a caneta que queria registar o
nascimento de um Olimpo indescritível.
A folha branca foi-se confrontando com uma
imensidão de letras mescladas nas cores e dando forma ao impulso dos dedos que
não paravam de bailar, saltar, entrelaçando-se como serpentes e os esboços iam
e vinham, ora com nuances prateadas ora cor de fogo, ora implorando um descanso
desmedido. A intriga destes pincéis que se metamorfoseavam em caneta alucinada na corrente da
escrita tornava-se inquietante para uns dedos que desvairados giravam em
rodopios de pontas, paragens inertes, corridas desenfreadas, murmúrios
sibilantes, desejos incontroláveis, voltas e mais voltas, riscos e mais riscos,
pausas e mais pausas, interlúdios carnais... partos sofridos, corpos
extenuados, almas perdidas na espuma do amanhã.
Os raios ténues de um sol tímido rasgaram a
cortina de algodão e penetraram nos meus olhos obrigando-os a abrir. Senti um
arrepio de cansaço e pulei da cama à procura dos meus dedos, dos meus pincéis,
da minha caneta e ...
O meu corpo não me obedecia, agitando-se
numa sensação de aperto descontrolado, agitando as almofadas, as cortinas, os papéis amontoados na
secretária. De repente um grito lancinante saiu das minhas entranhas e senti um alivio quando a encontrei.
Estava ali. Na parede. A um cantinho, do lado inferior direito: cinco dedos,
cinco pincéis, cinco deuses, uma virgem.
A alvura da folha estava repleta com uma
aurora polar.
Arménia Madail, Julho de 2015
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