quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015


 SONHEI QUE ELA SONHOU

Desgarrada, saiu, desbravando os campos de milho em direção ao crescente do firmamento. Braços abertos querendo agarrar o vento, corpo melodioso na sua correria e cabelos alvoroçados, ela foi...
Foi e não sabia onde ia, mas foi...
O calor que cavalgava na ondulação do campo chamou-a. Chamou-a e pediu-lhe que o abraçasse. Ela sentiu um arrepio quando s olhou, de súbito, o vestido pendurado numa espiga e a vontade veio-lhe. A combinação deixava prever um corpo angelical, de seios afiados e com vontade. Os sapatos descaíram dos seus pés e entrelaçaram-se nas papoilas. E ela deslizou na seara deixando que o sol e o vento a beijassem. Sentiu um arrepio, outro arrepio e os olhos entreabriram-se, deixando cair um braço num vulto que ao seu lado já não a queria... e acordou e uma gota escorreu pela sua cara.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Desafio frases com dois Zs.


A mão ziguezagueou com o giz e os rabiscos começaram a ter forma.
O pauzinho branco subia e descia e o z ficava desenhado na perfeição. A seguir veio um o muito redondinho , veloz, com grande vontade em não ficar sozinho. A mão, zangada, conduziu-o, para o final dos rr que quiseram ficar juntos e fizeram uma algazarra. O pau branco, muito zeloso, agarrou-os e acrescentou-lhes o o e eu escrevi, pela primeira vez: zorro.

sábado, 24 de janeiro de 2015


Sou eu...
Entre lágrimas, rosto sulcado, corpo decrépito.
Sou eu...
Entre o vento, a chuva, o nevoeiro.
Sou eu...
Entre caminhos sinuosos, rios pantanosos, mares revoltos.
Quem sou?
Um corpo que vagueia num planeta escuro, sem oxigénio, só.
Uma alma que procura a entrada prometida da adolescência.
Um ser que se repugna a morte do outro, a morte do inocente.
Alguém que tem as entranhas nas mãos e, ainda, consegue um grito.
Um grito que sai calado mas que se projeta no infinito.
Um grito, um ser, uma alma, um corpo, um EU.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014



Hoje, que será o ontem, os foguetes irão rebentar no ar anunciando que um novo ano brilhará nas nossas vidas e anos idosos ficarão para trás. As passas, as doze passas deslizarão nas nossas goelas dando-lhes livre trânsito para gritar: paz, amor, dinheiro, prosperidade! Mas os nossos olhos não se deixam enganar e cruzam-se com os corpos sedentos de um desejo: dignidade!
É este o desejo dos meus olhos, das minhas goelas, dos abraços que darei nesta dia que será o ontem e o amanhã de TODOS nós: precisamos de dignidade no NOVO ANO para podermos dizer que a luta não foi em vão.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Desafio a começar por Nada Mais Fácil e a acabar em Nada Mais Difícil, em 77 palavras.



Nada é mais fácil do que amar; difícil é encontrar quem.
Nada é mais fácil do que sorrir; difícil é encontrar motivo.
Nada é mais fácil do que ouvir; difícil é prestar atenção.
Nada é mais fácil do que ver; difícil é concentrar no pormenor.
Nada é mais fácil do que o sentir; o difícil é ter sensações.
O mundo quer: amor, sorrir, ouvir, ver, sentir...
A morte seduz-nos, vence-nos mansamente, adormece-nos e nada é mais difícil!

Arménia Madail, in Desafio 19

terça-feira, 28 de outubro de 2014

 
Núpcias
Esperei-te  - todos os dias e noites do meu viver -  na cama com docel.
E todos os dias e noites ansiava pelo teu toque, pelo teu amor.
Vestida de branco, entre os lençóis virginais esperei pelo teu murmúrio de promessas eternas.
Nos braços de um delírio febril senti-te perto de mim. As tuas palavras  ecoavam no silêncio da noite entranhando-se no meu sentir e deixei-me embalar pelas tuas carícias.
O véu que escondia os meus anseios foi defraudado; o vestido de botões infindáveis escorregou deixando a descoberto a minha tímida nudez e a madrugada acordou repleta de sonhos indeléveis. Núpcias: apenas e só solidão! 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014


Medo

Segui nas vielas escuras do teu olhar e senti a adrenalina percorrer –me. As palpitações fizeram-me ofegar desordenadamente, as gotículas de suor surgiram vertiginosamente e senti-me embrulhada, enclausurada. O confronto brutal dos teus e meus lábios disparou o meu vulnerável coração de adolescente.  A sensação carinhosa de um beijo desenhara-se no meu corpo como um pecado praticado e o medo desencadeou-se.