sábado, 24 de janeiro de 2015


Sou eu...
Entre lágrimas, rosto sulcado, corpo decrépito.
Sou eu...
Entre o vento, a chuva, o nevoeiro.
Sou eu...
Entre caminhos sinuosos, rios pantanosos, mares revoltos.
Quem sou?
Um corpo que vagueia num planeta escuro, sem oxigénio, só.
Uma alma que procura a entrada prometida da adolescência.
Um ser que se repugna a morte do outro, a morte do inocente.
Alguém que tem as entranhas nas mãos e, ainda, consegue um grito.
Um grito que sai calado mas que se projeta no infinito.
Um grito, um ser, uma alma, um corpo, um EU.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014



Hoje, que será o ontem, os foguetes irão rebentar no ar anunciando que um novo ano brilhará nas nossas vidas e anos idosos ficarão para trás. As passas, as doze passas deslizarão nas nossas goelas dando-lhes livre trânsito para gritar: paz, amor, dinheiro, prosperidade! Mas os nossos olhos não se deixam enganar e cruzam-se com os corpos sedentos de um desejo: dignidade!
É este o desejo dos meus olhos, das minhas goelas, dos abraços que darei nesta dia que será o ontem e o amanhã de TODOS nós: precisamos de dignidade no NOVO ANO para podermos dizer que a luta não foi em vão.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Desafio a começar por Nada Mais Fácil e a acabar em Nada Mais Difícil, em 77 palavras.



Nada é mais fácil do que amar; difícil é encontrar quem.
Nada é mais fácil do que sorrir; difícil é encontrar motivo.
Nada é mais fácil do que ouvir; difícil é prestar atenção.
Nada é mais fácil do que ver; difícil é concentrar no pormenor.
Nada é mais fácil do que o sentir; o difícil é ter sensações.
O mundo quer: amor, sorrir, ouvir, ver, sentir...
A morte seduz-nos, vence-nos mansamente, adormece-nos e nada é mais difícil!

Arménia Madail, in Desafio 19

terça-feira, 28 de outubro de 2014

 
Núpcias
Esperei-te  - todos os dias e noites do meu viver -  na cama com docel.
E todos os dias e noites ansiava pelo teu toque, pelo teu amor.
Vestida de branco, entre os lençóis virginais esperei pelo teu murmúrio de promessas eternas.
Nos braços de um delírio febril senti-te perto de mim. As tuas palavras  ecoavam no silêncio da noite entranhando-se no meu sentir e deixei-me embalar pelas tuas carícias.
O véu que escondia os meus anseios foi defraudado; o vestido de botões infindáveis escorregou deixando a descoberto a minha tímida nudez e a madrugada acordou repleta de sonhos indeléveis. Núpcias: apenas e só solidão! 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014


Medo

Segui nas vielas escuras do teu olhar e senti a adrenalina percorrer –me. As palpitações fizeram-me ofegar desordenadamente, as gotículas de suor surgiram vertiginosamente e senti-me embrulhada, enclausurada. O confronto brutal dos teus e meus lábios disparou o meu vulnerável coração de adolescente.  A sensação carinhosa de um beijo desenhara-se no meu corpo como um pecado praticado e o medo desencadeou-se. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014



Como te imagino
Hoje a madrugada – pé ante pé – subiu ao morro onde moras, envolta de uma névoa e bateu à tua porta. Ouvi o teu sono quieto e imaginei-te: corpo enroscado nos lençóis exalando um aroma de rosas; rosto tranquilo deixando os olhos passar a revista ao quarto; os teus sentidos procurando, em vão, a minha presença.
As cortinas esvoaçaram: entrei. E ao teu lado imaginei-te a levantar, nua, em direção ao espelho, onde tentas esconder a melancolia de um momento, momentos a dois: eu e tu. Sei que gostas de sentir-me e imagino-te a voltar ao leito onde a luxúria dos nossos eus se mistura com a vontade de não acabar aquele elo. Imagino-te trémula de prazer, arqueando  e deixando-te desfalecer nos meus braços, roçando os lábios pelo meu suor culminando num sossego suspirar. Imagino-te comigo, só comigo. E sei que não estou. Sei que não estás.
Tudo não passou de um querer imaginar-te.

Arménia Madail, in Desafios

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Desafio nº 70

Escrever um texto com 77 palavras em que é obrigatório colocar as seguintes palavras:
Esquecido, deambulou sozinho, vereda fora, experimentando saudades reconstruídas. Claro que a ordem é facultativa. E saíu isto.



Saudades reconstruídas...aqui estou, sozinho, experimentando a dor que me recorda o teu rosto perdido pela vereda fora do limbo etéreo. Não quero que sejas esquecido, por isso, os teus retratos abundam pela casa – chegam até a proliferar (não sei como). A dor arrancou-me pedaços e quando deambulou na direção do fim, voltou e cravou-se em mim, namorou o meu coração, a minha carne e fixou-se. Não consigo esquecer-te. Não quero esquecer-te.
Fazes-me falta, filho... muita falta!


Arménia Madail, in Desafios histórias com 77 palavras