terça-feira, 18 de novembro de 2014

Desafio a começar por Nada Mais Fácil e a acabar em Nada Mais Difícil, em 77 palavras.



Nada é mais fácil do que amar; difícil é encontrar quem.
Nada é mais fácil do que sorrir; difícil é encontrar motivo.
Nada é mais fácil do que ouvir; difícil é prestar atenção.
Nada é mais fácil do que ver; difícil é concentrar no pormenor.
Nada é mais fácil do que o sentir; o difícil é ter sensações.
O mundo quer: amor, sorrir, ouvir, ver, sentir...
A morte seduz-nos, vence-nos mansamente, adormece-nos e nada é mais difícil!

Arménia Madail, in Desafio 19

terça-feira, 28 de outubro de 2014

 
Núpcias
Esperei-te  - todos os dias e noites do meu viver -  na cama com docel.
E todos os dias e noites ansiava pelo teu toque, pelo teu amor.
Vestida de branco, entre os lençóis virginais esperei pelo teu murmúrio de promessas eternas.
Nos braços de um delírio febril senti-te perto de mim. As tuas palavras  ecoavam no silêncio da noite entranhando-se no meu sentir e deixei-me embalar pelas tuas carícias.
O véu que escondia os meus anseios foi defraudado; o vestido de botões infindáveis escorregou deixando a descoberto a minha tímida nudez e a madrugada acordou repleta de sonhos indeléveis. Núpcias: apenas e só solidão! 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014


Medo

Segui nas vielas escuras do teu olhar e senti a adrenalina percorrer –me. As palpitações fizeram-me ofegar desordenadamente, as gotículas de suor surgiram vertiginosamente e senti-me embrulhada, enclausurada. O confronto brutal dos teus e meus lábios disparou o meu vulnerável coração de adolescente.  A sensação carinhosa de um beijo desenhara-se no meu corpo como um pecado praticado e o medo desencadeou-se. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014



Como te imagino
Hoje a madrugada – pé ante pé – subiu ao morro onde moras, envolta de uma névoa e bateu à tua porta. Ouvi o teu sono quieto e imaginei-te: corpo enroscado nos lençóis exalando um aroma de rosas; rosto tranquilo deixando os olhos passar a revista ao quarto; os teus sentidos procurando, em vão, a minha presença.
As cortinas esvoaçaram: entrei. E ao teu lado imaginei-te a levantar, nua, em direção ao espelho, onde tentas esconder a melancolia de um momento, momentos a dois: eu e tu. Sei que gostas de sentir-me e imagino-te a voltar ao leito onde a luxúria dos nossos eus se mistura com a vontade de não acabar aquele elo. Imagino-te trémula de prazer, arqueando  e deixando-te desfalecer nos meus braços, roçando os lábios pelo meu suor culminando num sossego suspirar. Imagino-te comigo, só comigo. E sei que não estou. Sei que não estás.
Tudo não passou de um querer imaginar-te.

Arménia Madail, in Desafios

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Desafio nº 70

Escrever um texto com 77 palavras em que é obrigatório colocar as seguintes palavras:
Esquecido, deambulou sozinho, vereda fora, experimentando saudades reconstruídas. Claro que a ordem é facultativa. E saíu isto.



Saudades reconstruídas...aqui estou, sozinho, experimentando a dor que me recorda o teu rosto perdido pela vereda fora do limbo etéreo. Não quero que sejas esquecido, por isso, os teus retratos abundam pela casa – chegam até a proliferar (não sei como). A dor arrancou-me pedaços e quando deambulou na direção do fim, voltou e cravou-se em mim, namorou o meu coração, a minha carne e fixou-se. Não consigo esquecer-te. Não quero esquecer-te.
Fazes-me falta, filho... muita falta!


Arménia Madail, in Desafios histórias com 77 palavras

Cumpri a minha missão: um filho, uma árvore e um contributo num livro.
— a sentir-se agradecida.


  



O dilúvio terminou deixando um sulco na terra quente e o fio de água desaguou lá do outro lado da montanha. Lá, duas silhuetas debruçaram-se numa pequena poça tentando sorver as últimas gotas transparentes. E ele chegou, silencioso, tocando, levemente. E continuou o seu andar majestoso, silvando ternamente, levantando algumas folhas perdidas no chão. Gostou e avançou avolumando-se na dança tresloucada da aventura. E o gosto pela sua própria força tornou-o narcísico, curioso e bailou entre as árvores, entre as ondas, e chegou ao areal, beijando com um frenesim abrupto que levou os corpos dos amantes a entregarem-se ao desvario total da carne. Que seria aquela vontade que lhe saía sem vontade? Que seria aquele rasgar do nada sem ser rasgado? Quem ousaria vir desventrá-lo nesta sua plenitude de limite? O sopro final saiu, sem dizer, numa feliz expansão de amor-próprio e o orgasmo deu-se sem um ai. 



Arménia Madail