quarta-feira, 22 de outubro de 2014


Medo

Segui nas vielas escuras do teu olhar e senti a adrenalina percorrer –me. As palpitações fizeram-me ofegar desordenadamente, as gotículas de suor surgiram vertiginosamente e senti-me embrulhada, enclausurada. O confronto brutal dos teus e meus lábios disparou o meu vulnerável coração de adolescente.  A sensação carinhosa de um beijo desenhara-se no meu corpo como um pecado praticado e o medo desencadeou-se. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014



Como te imagino
Hoje a madrugada – pé ante pé – subiu ao morro onde moras, envolta de uma névoa e bateu à tua porta. Ouvi o teu sono quieto e imaginei-te: corpo enroscado nos lençóis exalando um aroma de rosas; rosto tranquilo deixando os olhos passar a revista ao quarto; os teus sentidos procurando, em vão, a minha presença.
As cortinas esvoaçaram: entrei. E ao teu lado imaginei-te a levantar, nua, em direção ao espelho, onde tentas esconder a melancolia de um momento, momentos a dois: eu e tu. Sei que gostas de sentir-me e imagino-te a voltar ao leito onde a luxúria dos nossos eus se mistura com a vontade de não acabar aquele elo. Imagino-te trémula de prazer, arqueando  e deixando-te desfalecer nos meus braços, roçando os lábios pelo meu suor culminando num sossego suspirar. Imagino-te comigo, só comigo. E sei que não estou. Sei que não estás.
Tudo não passou de um querer imaginar-te.

Arménia Madail, in Desafios

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Desafio nº 70

Escrever um texto com 77 palavras em que é obrigatório colocar as seguintes palavras:
Esquecido, deambulou sozinho, vereda fora, experimentando saudades reconstruídas. Claro que a ordem é facultativa. E saíu isto.



Saudades reconstruídas...aqui estou, sozinho, experimentando a dor que me recorda o teu rosto perdido pela vereda fora do limbo etéreo. Não quero que sejas esquecido, por isso, os teus retratos abundam pela casa – chegam até a proliferar (não sei como). A dor arrancou-me pedaços e quando deambulou na direção do fim, voltou e cravou-se em mim, namorou o meu coração, a minha carne e fixou-se. Não consigo esquecer-te. Não quero esquecer-te.
Fazes-me falta, filho... muita falta!


Arménia Madail, in Desafios histórias com 77 palavras

Cumpri a minha missão: um filho, uma árvore e um contributo num livro.
— a sentir-se agradecida.


  



O dilúvio terminou deixando um sulco na terra quente e o fio de água desaguou lá do outro lado da montanha. Lá, duas silhuetas debruçaram-se numa pequena poça tentando sorver as últimas gotas transparentes. E ele chegou, silencioso, tocando, levemente. E continuou o seu andar majestoso, silvando ternamente, levantando algumas folhas perdidas no chão. Gostou e avançou avolumando-se na dança tresloucada da aventura. E o gosto pela sua própria força tornou-o narcísico, curioso e bailou entre as árvores, entre as ondas, e chegou ao areal, beijando com um frenesim abrupto que levou os corpos dos amantes a entregarem-se ao desvario total da carne. Que seria aquela vontade que lhe saía sem vontade? Que seria aquele rasgar do nada sem ser rasgado? Quem ousaria vir desventrá-lo nesta sua plenitude de limite? O sopro final saiu, sem dizer, numa feliz expansão de amor-próprio e o orgasmo deu-se sem um ai. 



Arménia Madail


Desafio com 2 palavras, depois três e assim sucessivamente e apenas em 77 palavras.


Só eu
Só eu e...
Dói a tua ausência.
Os nossos corpos envoltos
Na virgindade dos lençóis revoltos
Daquela noite que foi só nossa.
E dói porque foste embora sem som,
Sem aquele beijo doce das manhãs amantes.
Naquele dia, o café respirou na cafeteira irrequieto;
As torradas inibidas teimaram em não sair da torradeira.
E eu... eu esperei pela tua presença que nunca chegou.
Aquela mesa - do passado – espera por um presente que não chega.
O meu corpo envelhece com uma vontade do teu que não aparece.



Arménia Madail, in histórias com 77 palavras


DESAFIO 72: Texto com 77 palavras em que só se pode utilizar frases com 2, 3, 6 e 7 palavras.
E saiu isto!
Conto, conto?
Eu vi.
Era uma vez um belo pavão. Queria muito voar, rasgar as nuvens.
Que fez? Querem saber, não?
Subiu, pé ante pé para o telhado. Aprumou as suas penas multicolores, singulares.
Fechou o leque. Precipitou-se no vazio.
Que majestoso!
O corpo baloiçou no ar, sem medos.
Exibiu-se para a pavoa do pátio vizinho.
Aterragem macia de um voo nupcial.
A receção de uma namorada orgulhosa, apaixonada.
O sonho tornou-se a realidade vivida.
O amor!
Arménia Madail, in histórias com 77 palavras



Pecado inocente
Naquela tarde cheguei a casa com a Elisa e a Tita – vindas da catequese – e corremos para o quarto, onde nos esquecíamos de tudo o que se passava ao nosso redor, para abrir as fotonovelas e ler num silêncio entrecortado por uns ais de adolescentes. A voz ( estridente) da titi fez-nos ficar em sentido para imediatamente corrermos, escada abaixo. O jantar estava na mesa.
O ritual da espera do avô – que dava a ordem de “podem sentar-se” surgiu.
Sentada de frente para a titi, reparei que ela me olhava de um modo estranho e logo as palavras lhe saíram em catadupa: Quem te deu isso? – Comprei na loja da D. Manuela. – Com que dinheiro?
Os meus olhos baixaram – pois não tinha dinheiro e não tinha ordem de nada comprar. E a confissão foi revelada: tinha-os roubado.
-Amanhã vais devolver o que tiraste. – Sim – anui.
Ninguém fez qualquer comentário.
No fim do jantar, levantamo-nos e o avô, em tom austero, lançou a sentença: “O castigo é para toda a semana: as tuas amigas não poderão vir cá a casa.”
No dia seguinte levantei-me e dirigi-me à loja da D. Manuela e entreguei-lhe os dois ganchinhos com o devido pedido de desculpas.

Arménia Madail


"Desejo tanto...
Desejo tanto que as noites devorem rapidamente os dias para te poder encontrar.
Desejo tanto os teus seios rígidos que chamam a minha carestia de amor; as tuas mãos a palmilhar o meu corpo na procura de mim; ter-te nas minhas mãos; tocar-te com os meu lábios; sentir o teu odor; desejo tanto que me deixes entrar e ficar até que os nossos sentidos deixem de ser sentidos...
Há muito que a minha avidez se tornou um irremediável tormento e, para serenar, imagino-te numa entrega à água cristalina na esperança de que um dia ela te possa purificar. E fico, sentado no cadeirão, à espera do impossível do possível: que todos os homens, a quem te entregas, cruzem os oceanos e por eles sejam tragados.
Desejo tanto!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A neta e a avó



DESAFIO: "77 palavras sem a letra A"

O tempo que esperei por ti!
Creio que esqueceste o mundo em teu redor e fugiste. Escondeste teus vislumbres no fundo do céu nublado, cheio de cumulus e queres que todos fiquemos no escuro do teu remorso. Vem! Os frutos impelem pelo teu esplendor e eu quero e preciso do teu brilho que destine o meu trilho. Vem e socorre os rebentos sedentos. Vem e diz-me que queres subsistir, persistir e prescindes do teu esconderijo. Vem SOL!

Arménia Madail


Desafio com palavras selecionadas

Caramelo fugiu quando ousou xingar a Abelha. Esta enamorara-se do Jacaré não admitindo ironias. O seu amor era um livro aberto. Naquela tarde, os nenúfares vertiam pólen fazendo ruborizar quem quisesse acariciá-los...A abelha ziguezagueou, tremeu e enterrou o ferrão, quando Caramelo surgiu de mansinho gritando: “Miauuuuuuu! Nessas flores não pões a unha; o doutor não te vai valer!” O Jacaré saiu do botão da flor, sustendo-o, imobilizou-o, murmurando: “que fugir ou levas um grande pontapé!

Arménia Madail, in 77 palavras



Desafio com a palavra NÃO catorze vezes.
 


Não! Não!

“- Não! Não e não! Já disse que não! Não quero que apanhes sol!” – a mãe não gostava que eu me sentasse no quintal à espera deles porque, dizia ela, o sol fazia-me mal. Mas eu não queria perder aquele baile: os boeiros, as poupas, os melros... não desperdiçavam uma única semente: saltitantes, atarefados – parecia que não teriam outro manjar. Não se importavam por ter companhia; não se inibiam e não deixavam de depenicar...
“- Não! Não! Sai daí!”
Arménia Madail, in 77 palavras

DESAFIO: Uma folha de papel é amarrotada com violência
e atirada para o lixo. Contudo, cai fora dele.

Aquelas palavras penetraram no meu corpo com dolorosa paixão. Palavras tão doces que ele escreveu! Senti-me lisonjeada, mas preocupada: sabia que ela não o olhava como ele queria; que, ainda, não sentia o que ele sentia.
Aqueles óculos grandes! Será que não percebeu que pode mudá-los por umas lentes e mostrar aquele imenso mar que transborda das suas pupilas?
Aquelas belas palavras!
Foi por isso que me recusei a ir para a papeleira. Ela vai encontrar-me e ler-me...

Arménia Madail, in 77 palavras
DESAFIO: dois objetos conversam

O Espanador e o Livro
- Ufa! Passou aqui um furacão! Há muito que o Espanador não me visitava. Como está?
- Bem, obrigado. Passei para ver como estava e reconheço que quando o vi o achei um pouco adoentado.
- Pudera! Há três semanas que não sou visitado; ninguém me pode agarrar, abrir, ler...
- Mas agora que cheguei, como se sente?
- Mais reconfortado e feliz!
- Acho-o mais vivaço, sr Livro. As suas letras brilham e encantam as crianças. Olhe para elas. Que contentes estão!

Arménia Madail, in 77 palavras


CARTA DE DESPEDIDA DESAFIO DO CLUBE DOS PROETAS

Hoje, tolero a dor e envio-te as minhas últimas palavras.
Sei que não será fácil leres, mas escutá-las seria bem pior.
Quero dizer-te que a minha chegada, apesar de turbulenta - como tu dizias – veio dar um alento na tua vida de quarenta e cinco anos e que foste a primeira mulher com quem dormi; a primeira que beijei; a primeira a levar-me à escola; ao liceu e ao hospital. Sei que de todas essas vezes te rolaram pela face gotas escondidas que desaguavam na tua boca porque rias para eu não as ver. Vi-te arrancar da garganta palavras carinhosas e de consolo quando as querias amarfanhar e gritar a tua dor. Escrevo-te porque não me ouvirás mais e quero dizer-te o quanto me orgulho de ti, da tua persistência em me olhares com tanta ternura e que tanto me doía. Quero acreditar que não me culparás por te deixar. Deixo-te para aliviar o sofrimento: o teu e o meu. Quero que sorrias no dia do meu funeral, quero que sigas a tua errância com o teu sorriso, confiante que um dia voltaremos a estar juntos.
Um beijo.

sábado, 14 de junho de 2014




DESAFIO XXXI - O meu estado de alma

Quando entrei e te vi o meu coração disparou, sem sossego, durante segundos que pareceram uma vida inteira. Na penumbra da sala, entre os cortinados esvoaçantes, entrava uma luz ténue de uma lua surpreendida – como eu – Os pés iniciaram, a medo, uma investida até ti. Quanto mais me aproximava mais tu te afastavas. O ritmo da minha marcha tornou-se estático, na esperança que a tua presença não desaparecesse. E a lua que não parava de espreitar! Parecia querer ser testemunha do nosso reencontro. Parada, em êxtase, recebi-te de alma aberta. Sabia que era por pouco tempo, mas não quis perder-te, mais uma vez. E deixei que te apoderasses do meu corpo e que rebolasses nos trajetos mais íntimos do meu ser. E senti-te. Muito perto. Tão perto que te ouvia sussurrar todas as palavras de amor que há muito não ouvia. E quando me preparava para te devolver as minhas carícias, a lua escondeu-se nas nuvens e tu desapareceste com ela. Nem imaginas o meu estado de alma!

domingo, 8 de junho de 2014


Texto baseado num Nome.



Henrique Guerreiro


Maria e Antero desejavam um filho a todo o custo. Um dia, pela aurora, um choro apagado ecoou pela viela, ladeada de roseiras, e os pirilampos que nelas estavam poisados esconderam-se, assustados com tal som nunca ouvido naquela planície, naquela viela, naquela casita.
Uma criatura, enfezada, que mais parecia um coelhinho, disparou do ventre de Maria. Antero amparou – o  e, trémulo, amedrontado, aconchegou-o ao seu peito. Maria sorriu,  pôs de fora o seio e alimentou-o, enquanto Antero pensava num nome a dar àquele, há tanto esperado. “-Henrique! Sim, vai chamar-se Henrique. Henrique Guerreiro!” E Henrique Guerreiro ficou.
O rapaz foi crescendo e fortalecendo e tornou-se um belo homem: olhos rasgados da cor do mar que desaguavam numa pele trigueira e no peito oferecia um coração a todos. Antero e Maria envelheciam embevecidos com o seu menino. Menino que guerreou com a morte  que aos seis anos o quis levar, depois de uma febre de um mês, de uma doença maldita, de uma pequena vida sem esperança – dizia o médico. “Henrique Guerreiro, o nosso filho, Maria! Olha para ele. O nome foi bem escolhido. Henrique, um rei e Guerreiro, um lutador!”
Maria suspirou e apoiou a sua cabeça no ombro de Antero.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

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 TEXTO BASEADO NA FOTO DE BRUCE DAVIDSON

O autocarro parou, vomitando corpos  nauseabundos e sonâmbulos que rapidamente desapareceram no meio da cidade deserta, iluminada pelos néon das lojas . A última passageira desceu lentamente, a medo, pousando um pé, de cada vez, no asfalto negro, olhos baços e extasiados parados nas órbitas e pensou: “ cheguei” - depois de tantos anos, meses , dias de tensões reprimidas e de vontade de fugir.  Saíra de casa tão somente com um saco feito à pressa e com Nini - a gata – companheira da sua solidão, da vida refreada, confidente dos sofridos ais – calados – após as violações. Estava, agora, livre. O medo que sentia era diferente dos outros medos de ter medo; avançou, procurando um refúgio. Na entrada do prédio Wellington viu como seu o recanto que a poderia acolher. Nini cravou-lhe as unhas aguçadas no casaco, como que alertando-a para um perigo. A jovem acalmou-a: era apenas um transeunte que vagueava em direção a parte incerta – como elas. A madrugada começava a arrefecer e o estômago ronronava em simultâneo com Nini. Antes de fazer o seu ninho decidiu andar um pouco mais na esperança de encontrar um café aberto para poder saciar-se a ela e à gata. E encontrou. Pediu um copo de leite e dividiu-o com a sua companheira e regressaram.
Nini voltou a ficar inquieta e voltou a ser acariciada. Nini não parou e (desta vez) rasgou o casaco da dona, deixando sair um fio de sangue. O transeunte seguia-as. Alice acelerou o passo e o transeunte, também. Correu e o transeunte, também. Alice aconchegou Nini no seu peito e parou. O transeunte aconchegou a sua máquina e parou, também. Nini olhou e o transeunte disparou. O flash iluminou e a câmara guardou Alice com o seu saco às costas e com Nini no regaço. Numa cidade iluminada apenas pelos néon das lojas. 
Foto de Bruce Davidson