quarta-feira, 15 de outubro de 2014



Como te imagino
Hoje a madrugada – pé ante pé – subiu ao morro onde moras, envolta de uma névoa e bateu à tua porta. Ouvi o teu sono quieto e imaginei-te: corpo enroscado nos lençóis exalando um aroma de rosas; rosto tranquilo deixando os olhos passar a revista ao quarto; os teus sentidos procurando, em vão, a minha presença.
As cortinas esvoaçaram: entrei. E ao teu lado imaginei-te a levantar, nua, em direção ao espelho, onde tentas esconder a melancolia de um momento, momentos a dois: eu e tu. Sei que gostas de sentir-me e imagino-te a voltar ao leito onde a luxúria dos nossos eus se mistura com a vontade de não acabar aquele elo. Imagino-te trémula de prazer, arqueando  e deixando-te desfalecer nos meus braços, roçando os lábios pelo meu suor culminando num sossego suspirar. Imagino-te comigo, só comigo. E sei que não estou. Sei que não estás.
Tudo não passou de um querer imaginar-te.

Arménia Madail, in Desafios

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Desafio nº 70

Escrever um texto com 77 palavras em que é obrigatório colocar as seguintes palavras:
Esquecido, deambulou sozinho, vereda fora, experimentando saudades reconstruídas. Claro que a ordem é facultativa. E saíu isto.



Saudades reconstruídas...aqui estou, sozinho, experimentando a dor que me recorda o teu rosto perdido pela vereda fora do limbo etéreo. Não quero que sejas esquecido, por isso, os teus retratos abundam pela casa – chegam até a proliferar (não sei como). A dor arrancou-me pedaços e quando deambulou na direção do fim, voltou e cravou-se em mim, namorou o meu coração, a minha carne e fixou-se. Não consigo esquecer-te. Não quero esquecer-te.
Fazes-me falta, filho... muita falta!


Arménia Madail, in Desafios histórias com 77 palavras

Cumpri a minha missão: um filho, uma árvore e um contributo num livro.
— a sentir-se agradecida.


  



O dilúvio terminou deixando um sulco na terra quente e o fio de água desaguou lá do outro lado da montanha. Lá, duas silhuetas debruçaram-se numa pequena poça tentando sorver as últimas gotas transparentes. E ele chegou, silencioso, tocando, levemente. E continuou o seu andar majestoso, silvando ternamente, levantando algumas folhas perdidas no chão. Gostou e avançou avolumando-se na dança tresloucada da aventura. E o gosto pela sua própria força tornou-o narcísico, curioso e bailou entre as árvores, entre as ondas, e chegou ao areal, beijando com um frenesim abrupto que levou os corpos dos amantes a entregarem-se ao desvario total da carne. Que seria aquela vontade que lhe saía sem vontade? Que seria aquele rasgar do nada sem ser rasgado? Quem ousaria vir desventrá-lo nesta sua plenitude de limite? O sopro final saiu, sem dizer, numa feliz expansão de amor-próprio e o orgasmo deu-se sem um ai. 



Arménia Madail


Desafio com 2 palavras, depois três e assim sucessivamente e apenas em 77 palavras.


Só eu
Só eu e...
Dói a tua ausência.
Os nossos corpos envoltos
Na virgindade dos lençóis revoltos
Daquela noite que foi só nossa.
E dói porque foste embora sem som,
Sem aquele beijo doce das manhãs amantes.
Naquele dia, o café respirou na cafeteira irrequieto;
As torradas inibidas teimaram em não sair da torradeira.
E eu... eu esperei pela tua presença que nunca chegou.
Aquela mesa - do passado – espera por um presente que não chega.
O meu corpo envelhece com uma vontade do teu que não aparece.



Arménia Madail, in histórias com 77 palavras


DESAFIO 72: Texto com 77 palavras em que só se pode utilizar frases com 2, 3, 6 e 7 palavras.
E saiu isto!
Conto, conto?
Eu vi.
Era uma vez um belo pavão. Queria muito voar, rasgar as nuvens.
Que fez? Querem saber, não?
Subiu, pé ante pé para o telhado. Aprumou as suas penas multicolores, singulares.
Fechou o leque. Precipitou-se no vazio.
Que majestoso!
O corpo baloiçou no ar, sem medos.
Exibiu-se para a pavoa do pátio vizinho.
Aterragem macia de um voo nupcial.
A receção de uma namorada orgulhosa, apaixonada.
O sonho tornou-se a realidade vivida.
O amor!
Arménia Madail, in histórias com 77 palavras



Pecado inocente
Naquela tarde cheguei a casa com a Elisa e a Tita – vindas da catequese – e corremos para o quarto, onde nos esquecíamos de tudo o que se passava ao nosso redor, para abrir as fotonovelas e ler num silêncio entrecortado por uns ais de adolescentes. A voz ( estridente) da titi fez-nos ficar em sentido para imediatamente corrermos, escada abaixo. O jantar estava na mesa.
O ritual da espera do avô – que dava a ordem de “podem sentar-se” surgiu.
Sentada de frente para a titi, reparei que ela me olhava de um modo estranho e logo as palavras lhe saíram em catadupa: Quem te deu isso? – Comprei na loja da D. Manuela. – Com que dinheiro?
Os meus olhos baixaram – pois não tinha dinheiro e não tinha ordem de nada comprar. E a confissão foi revelada: tinha-os roubado.
-Amanhã vais devolver o que tiraste. – Sim – anui.
Ninguém fez qualquer comentário.
No fim do jantar, levantamo-nos e o avô, em tom austero, lançou a sentença: “O castigo é para toda a semana: as tuas amigas não poderão vir cá a casa.”
No dia seguinte levantei-me e dirigi-me à loja da D. Manuela e entreguei-lhe os dois ganchinhos com o devido pedido de desculpas.

Arménia Madail