terça-feira, 14 de outubro de 2014
O dilúvio terminou deixando um sulco na terra quente e o fio de água desaguou lá do outro lado da montanha. Lá, duas silhuetas debruçaram-se numa pequena poça tentando sorver as últimas gotas transparentes. E ele chegou, silencioso, tocando, levemente. E continuou o seu andar majestoso, silvando ternamente, levantando algumas folhas perdidas no chão. Gostou e avançou avolumando-se na dança tresloucada da aventura. E o gosto pela sua própria força tornou-o narcísico, curioso e bailou entre as árvores, entre as ondas, e chegou ao areal, beijando com um frenesim abrupto que levou os corpos dos amantes a entregarem-se ao desvario total da carne. Que seria aquela vontade que lhe saía sem vontade? Que seria aquele rasgar do nada sem ser rasgado? Quem ousaria vir desventrá-lo nesta sua plenitude de limite? O sopro final saiu, sem dizer, numa feliz expansão de amor-próprio e o orgasmo deu-se sem um ai.
Desafio com 2 palavras, depois três e assim sucessivamente e apenas em 77 palavras.
Só eu
Só eu e...
Dói a tua ausência.
Os nossos corpos envoltos
Na virgindade dos lençóis revoltos
Daquela noite que foi só nossa.
E dói porque foste embora sem som,
Sem aquele beijo doce das manhãs amantes.
Naquele dia, o café respirou na cafeteira irrequieto;
As torradas inibidas teimaram em não sair da torradeira.
E eu... eu esperei pela tua presença que nunca chegou.
Aquela mesa - do passado – espera por um presente que não chega.
O meu corpo envelhece com uma vontade do teu que não aparece.
Arménia Madail, in histórias com 77 palavras
DESAFIO 72: Texto com 77 palavras em que só se pode utilizar frases com 2, 3, 6 e 7 palavras.
E saiu isto!
Conto, conto?
Eu vi.
Era uma vez um belo pavão. Queria muito voar, rasgar as nuvens.
Que fez? Querem saber, não?
Subiu, pé ante pé para o telhado. Aprumou as suas penas multicolores, singulares.
Fechou o leque. Precipitou-se no vazio.
Que majestoso!
O corpo baloiçou no ar, sem medos.
Exibiu-se para a pavoa do pátio vizinho.
Aterragem macia de um voo nupcial.
A receção de uma namorada orgulhosa, apaixonada.
O sonho tornou-se a realidade vivida.
O amor!
Arménia Madail, in histórias com 77 palavras
Pecado inocente
Naquela tarde cheguei a casa com a Elisa e a Tita – vindas da catequese – e corremos para o quarto, onde nos esquecíamos de tudo o que se passava ao nosso redor, para abrir as fotonovelas e ler num silêncio entrecortado por uns ais de adolescentes. A voz ( estridente) da titi fez-nos ficar em sentido para imediatamente corrermos, escada abaixo. O jantar estava na mesa.
O ritual da espera do avô – que dava a ordem de “podem sentar-se” surgiu.
Sentada de frente para a titi, reparei que ela me olhava de um modo estranho e logo as palavras lhe saíram em catadupa: Quem te deu isso? – Comprei na loja da D. Manuela. – Com que dinheiro?
Os meus olhos baixaram – pois não tinha dinheiro e não tinha ordem de nada comprar. E a confissão foi revelada: tinha-os roubado.
-Amanhã vais devolver o que tiraste. – Sim – anui.
Ninguém fez qualquer comentário.
No fim do jantar, levantamo-nos e o avô, em tom austero, lançou a sentença: “O castigo é para toda a semana: as tuas amigas não poderão vir cá a casa.”
No dia seguinte levantei-me e dirigi-me à loja da D. Manuela e entreguei-lhe os dois ganchinhos com o devido pedido de desculpas.
Arménia Madail
"Desejo tanto...
Desejo tanto que as noites devorem rapidamente os dias para te poder encontrar.
Desejo tanto os teus seios rígidos que chamam a minha carestia de amor; as tuas mãos a palmilhar o meu corpo na procura de mim; ter-te nas minhas mãos; tocar-te com os meu lábios; sentir o teu odor; desejo tanto que me deixes entrar e ficar até que os nossos sentidos deixem de ser sentidos...
Há muito que a minha avidez se tornou um irremediável tormento e, para serenar, imagino-te numa entrega à água cristalina na esperança de que um dia ela te possa purificar. E fico, sentado no cadeirão, à espera do impossível do possível: que todos os homens, a quem te entregas, cruzem os oceanos e por eles sejam tragados.
Desejo tanto!
quinta-feira, 26 de junho de 2014
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