terça-feira, 14 de outubro de 2014



"Desejo tanto...
Desejo tanto que as noites devorem rapidamente os dias para te poder encontrar.
Desejo tanto os teus seios rígidos que chamam a minha carestia de amor; as tuas mãos a palmilhar o meu corpo na procura de mim; ter-te nas minhas mãos; tocar-te com os meu lábios; sentir o teu odor; desejo tanto que me deixes entrar e ficar até que os nossos sentidos deixem de ser sentidos...
Há muito que a minha avidez se tornou um irremediável tormento e, para serenar, imagino-te numa entrega à água cristalina na esperança de que um dia ela te possa purificar. E fico, sentado no cadeirão, à espera do impossível do possível: que todos os homens, a quem te entregas, cruzem os oceanos e por eles sejam tragados.
Desejo tanto!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A neta e a avó



DESAFIO: "77 palavras sem a letra A"

O tempo que esperei por ti!
Creio que esqueceste o mundo em teu redor e fugiste. Escondeste teus vislumbres no fundo do céu nublado, cheio de cumulus e queres que todos fiquemos no escuro do teu remorso. Vem! Os frutos impelem pelo teu esplendor e eu quero e preciso do teu brilho que destine o meu trilho. Vem e socorre os rebentos sedentos. Vem e diz-me que queres subsistir, persistir e prescindes do teu esconderijo. Vem SOL!

Arménia Madail


Desafio com palavras selecionadas

Caramelo fugiu quando ousou xingar a Abelha. Esta enamorara-se do Jacaré não admitindo ironias. O seu amor era um livro aberto. Naquela tarde, os nenúfares vertiam pólen fazendo ruborizar quem quisesse acariciá-los...A abelha ziguezagueou, tremeu e enterrou o ferrão, quando Caramelo surgiu de mansinho gritando: “Miauuuuuuu! Nessas flores não pões a unha; o doutor não te vai valer!” O Jacaré saiu do botão da flor, sustendo-o, imobilizou-o, murmurando: “que fugir ou levas um grande pontapé!

Arménia Madail, in 77 palavras



Desafio com a palavra NÃO catorze vezes.
 


Não! Não!

“- Não! Não e não! Já disse que não! Não quero que apanhes sol!” – a mãe não gostava que eu me sentasse no quintal à espera deles porque, dizia ela, o sol fazia-me mal. Mas eu não queria perder aquele baile: os boeiros, as poupas, os melros... não desperdiçavam uma única semente: saltitantes, atarefados – parecia que não teriam outro manjar. Não se importavam por ter companhia; não se inibiam e não deixavam de depenicar...
“- Não! Não! Sai daí!”
Arménia Madail, in 77 palavras

DESAFIO: Uma folha de papel é amarrotada com violência
e atirada para o lixo. Contudo, cai fora dele.

Aquelas palavras penetraram no meu corpo com dolorosa paixão. Palavras tão doces que ele escreveu! Senti-me lisonjeada, mas preocupada: sabia que ela não o olhava como ele queria; que, ainda, não sentia o que ele sentia.
Aqueles óculos grandes! Será que não percebeu que pode mudá-los por umas lentes e mostrar aquele imenso mar que transborda das suas pupilas?
Aquelas belas palavras!
Foi por isso que me recusei a ir para a papeleira. Ela vai encontrar-me e ler-me...

Arménia Madail, in 77 palavras
DESAFIO: dois objetos conversam

O Espanador e o Livro
- Ufa! Passou aqui um furacão! Há muito que o Espanador não me visitava. Como está?
- Bem, obrigado. Passei para ver como estava e reconheço que quando o vi o achei um pouco adoentado.
- Pudera! Há três semanas que não sou visitado; ninguém me pode agarrar, abrir, ler...
- Mas agora que cheguei, como se sente?
- Mais reconfortado e feliz!
- Acho-o mais vivaço, sr Livro. As suas letras brilham e encantam as crianças. Olhe para elas. Que contentes estão!

Arménia Madail, in 77 palavras