quinta-feira, 26 de junho de 2014


DESAFIO: Uma folha de papel é amarrotada com violência
e atirada para o lixo. Contudo, cai fora dele.

Aquelas palavras penetraram no meu corpo com dolorosa paixão. Palavras tão doces que ele escreveu! Senti-me lisonjeada, mas preocupada: sabia que ela não o olhava como ele queria; que, ainda, não sentia o que ele sentia.
Aqueles óculos grandes! Será que não percebeu que pode mudá-los por umas lentes e mostrar aquele imenso mar que transborda das suas pupilas?
Aquelas belas palavras!
Foi por isso que me recusei a ir para a papeleira. Ela vai encontrar-me e ler-me...

Arménia Madail, in 77 palavras
DESAFIO: dois objetos conversam

O Espanador e o Livro
- Ufa! Passou aqui um furacão! Há muito que o Espanador não me visitava. Como está?
- Bem, obrigado. Passei para ver como estava e reconheço que quando o vi o achei um pouco adoentado.
- Pudera! Há três semanas que não sou visitado; ninguém me pode agarrar, abrir, ler...
- Mas agora que cheguei, como se sente?
- Mais reconfortado e feliz!
- Acho-o mais vivaço, sr Livro. As suas letras brilham e encantam as crianças. Olhe para elas. Que contentes estão!

Arménia Madail, in 77 palavras


CARTA DE DESPEDIDA DESAFIO DO CLUBE DOS PROETAS

Hoje, tolero a dor e envio-te as minhas últimas palavras.
Sei que não será fácil leres, mas escutá-las seria bem pior.
Quero dizer-te que a minha chegada, apesar de turbulenta - como tu dizias – veio dar um alento na tua vida de quarenta e cinco anos e que foste a primeira mulher com quem dormi; a primeira que beijei; a primeira a levar-me à escola; ao liceu e ao hospital. Sei que de todas essas vezes te rolaram pela face gotas escondidas que desaguavam na tua boca porque rias para eu não as ver. Vi-te arrancar da garganta palavras carinhosas e de consolo quando as querias amarfanhar e gritar a tua dor. Escrevo-te porque não me ouvirás mais e quero dizer-te o quanto me orgulho de ti, da tua persistência em me olhares com tanta ternura e que tanto me doía. Quero acreditar que não me culparás por te deixar. Deixo-te para aliviar o sofrimento: o teu e o meu. Quero que sorrias no dia do meu funeral, quero que sigas a tua errância com o teu sorriso, confiante que um dia voltaremos a estar juntos.
Um beijo.

sábado, 14 de junho de 2014




DESAFIO XXXI - O meu estado de alma

Quando entrei e te vi o meu coração disparou, sem sossego, durante segundos que pareceram uma vida inteira. Na penumbra da sala, entre os cortinados esvoaçantes, entrava uma luz ténue de uma lua surpreendida – como eu – Os pés iniciaram, a medo, uma investida até ti. Quanto mais me aproximava mais tu te afastavas. O ritmo da minha marcha tornou-se estático, na esperança que a tua presença não desaparecesse. E a lua que não parava de espreitar! Parecia querer ser testemunha do nosso reencontro. Parada, em êxtase, recebi-te de alma aberta. Sabia que era por pouco tempo, mas não quis perder-te, mais uma vez. E deixei que te apoderasses do meu corpo e que rebolasses nos trajetos mais íntimos do meu ser. E senti-te. Muito perto. Tão perto que te ouvia sussurrar todas as palavras de amor que há muito não ouvia. E quando me preparava para te devolver as minhas carícias, a lua escondeu-se nas nuvens e tu desapareceste com ela. Nem imaginas o meu estado de alma!

domingo, 8 de junho de 2014


Texto baseado num Nome.



Henrique Guerreiro


Maria e Antero desejavam um filho a todo o custo. Um dia, pela aurora, um choro apagado ecoou pela viela, ladeada de roseiras, e os pirilampos que nelas estavam poisados esconderam-se, assustados com tal som nunca ouvido naquela planície, naquela viela, naquela casita.
Uma criatura, enfezada, que mais parecia um coelhinho, disparou do ventre de Maria. Antero amparou – o  e, trémulo, amedrontado, aconchegou-o ao seu peito. Maria sorriu,  pôs de fora o seio e alimentou-o, enquanto Antero pensava num nome a dar àquele, há tanto esperado. “-Henrique! Sim, vai chamar-se Henrique. Henrique Guerreiro!” E Henrique Guerreiro ficou.
O rapaz foi crescendo e fortalecendo e tornou-se um belo homem: olhos rasgados da cor do mar que desaguavam numa pele trigueira e no peito oferecia um coração a todos. Antero e Maria envelheciam embevecidos com o seu menino. Menino que guerreou com a morte  que aos seis anos o quis levar, depois de uma febre de um mês, de uma doença maldita, de uma pequena vida sem esperança – dizia o médico. “Henrique Guerreiro, o nosso filho, Maria! Olha para ele. O nome foi bem escolhido. Henrique, um rei e Guerreiro, um lutador!”
Maria suspirou e apoiou a sua cabeça no ombro de Antero.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

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 TEXTO BASEADO NA FOTO DE BRUCE DAVIDSON

O autocarro parou, vomitando corpos  nauseabundos e sonâmbulos que rapidamente desapareceram no meio da cidade deserta, iluminada pelos néon das lojas . A última passageira desceu lentamente, a medo, pousando um pé, de cada vez, no asfalto negro, olhos baços e extasiados parados nas órbitas e pensou: “ cheguei” - depois de tantos anos, meses , dias de tensões reprimidas e de vontade de fugir.  Saíra de casa tão somente com um saco feito à pressa e com Nini - a gata – companheira da sua solidão, da vida refreada, confidente dos sofridos ais – calados – após as violações. Estava, agora, livre. O medo que sentia era diferente dos outros medos de ter medo; avançou, procurando um refúgio. Na entrada do prédio Wellington viu como seu o recanto que a poderia acolher. Nini cravou-lhe as unhas aguçadas no casaco, como que alertando-a para um perigo. A jovem acalmou-a: era apenas um transeunte que vagueava em direção a parte incerta – como elas. A madrugada começava a arrefecer e o estômago ronronava em simultâneo com Nini. Antes de fazer o seu ninho decidiu andar um pouco mais na esperança de encontrar um café aberto para poder saciar-se a ela e à gata. E encontrou. Pediu um copo de leite e dividiu-o com a sua companheira e regressaram.
Nini voltou a ficar inquieta e voltou a ser acariciada. Nini não parou e (desta vez) rasgou o casaco da dona, deixando sair um fio de sangue. O transeunte seguia-as. Alice acelerou o passo e o transeunte, também. Correu e o transeunte, também. Alice aconchegou Nini no seu peito e parou. O transeunte aconchegou a sua máquina e parou, também. Nini olhou e o transeunte disparou. O flash iluminou e a câmara guardou Alice com o seu saco às costas e com Nini no regaço. Numa cidade iluminada apenas pelos néon das lojas. 
Foto de Bruce Davidson