quinta-feira, 26 de junho de 2014



CARTA DE DESPEDIDA DESAFIO DO CLUBE DOS PROETAS

Hoje, tolero a dor e envio-te as minhas últimas palavras.
Sei que não será fácil leres, mas escutá-las seria bem pior.
Quero dizer-te que a minha chegada, apesar de turbulenta - como tu dizias – veio dar um alento na tua vida de quarenta e cinco anos e que foste a primeira mulher com quem dormi; a primeira que beijei; a primeira a levar-me à escola; ao liceu e ao hospital. Sei que de todas essas vezes te rolaram pela face gotas escondidas que desaguavam na tua boca porque rias para eu não as ver. Vi-te arrancar da garganta palavras carinhosas e de consolo quando as querias amarfanhar e gritar a tua dor. Escrevo-te porque não me ouvirás mais e quero dizer-te o quanto me orgulho de ti, da tua persistência em me olhares com tanta ternura e que tanto me doía. Quero acreditar que não me culparás por te deixar. Deixo-te para aliviar o sofrimento: o teu e o meu. Quero que sorrias no dia do meu funeral, quero que sigas a tua errância com o teu sorriso, confiante que um dia voltaremos a estar juntos.
Um beijo.

sábado, 14 de junho de 2014




DESAFIO XXXI - O meu estado de alma

Quando entrei e te vi o meu coração disparou, sem sossego, durante segundos que pareceram uma vida inteira. Na penumbra da sala, entre os cortinados esvoaçantes, entrava uma luz ténue de uma lua surpreendida – como eu – Os pés iniciaram, a medo, uma investida até ti. Quanto mais me aproximava mais tu te afastavas. O ritmo da minha marcha tornou-se estático, na esperança que a tua presença não desaparecesse. E a lua que não parava de espreitar! Parecia querer ser testemunha do nosso reencontro. Parada, em êxtase, recebi-te de alma aberta. Sabia que era por pouco tempo, mas não quis perder-te, mais uma vez. E deixei que te apoderasses do meu corpo e que rebolasses nos trajetos mais íntimos do meu ser. E senti-te. Muito perto. Tão perto que te ouvia sussurrar todas as palavras de amor que há muito não ouvia. E quando me preparava para te devolver as minhas carícias, a lua escondeu-se nas nuvens e tu desapareceste com ela. Nem imaginas o meu estado de alma!

domingo, 8 de junho de 2014


Texto baseado num Nome.



Henrique Guerreiro


Maria e Antero desejavam um filho a todo o custo. Um dia, pela aurora, um choro apagado ecoou pela viela, ladeada de roseiras, e os pirilampos que nelas estavam poisados esconderam-se, assustados com tal som nunca ouvido naquela planície, naquela viela, naquela casita.
Uma criatura, enfezada, que mais parecia um coelhinho, disparou do ventre de Maria. Antero amparou – o  e, trémulo, amedrontado, aconchegou-o ao seu peito. Maria sorriu,  pôs de fora o seio e alimentou-o, enquanto Antero pensava num nome a dar àquele, há tanto esperado. “-Henrique! Sim, vai chamar-se Henrique. Henrique Guerreiro!” E Henrique Guerreiro ficou.
O rapaz foi crescendo e fortalecendo e tornou-se um belo homem: olhos rasgados da cor do mar que desaguavam numa pele trigueira e no peito oferecia um coração a todos. Antero e Maria envelheciam embevecidos com o seu menino. Menino que guerreou com a morte  que aos seis anos o quis levar, depois de uma febre de um mês, de uma doença maldita, de uma pequena vida sem esperança – dizia o médico. “Henrique Guerreiro, o nosso filho, Maria! Olha para ele. O nome foi bem escolhido. Henrique, um rei e Guerreiro, um lutador!”
Maria suspirou e apoiou a sua cabeça no ombro de Antero.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

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 TEXTO BASEADO NA FOTO DE BRUCE DAVIDSON

O autocarro parou, vomitando corpos  nauseabundos e sonâmbulos que rapidamente desapareceram no meio da cidade deserta, iluminada pelos néon das lojas . A última passageira desceu lentamente, a medo, pousando um pé, de cada vez, no asfalto negro, olhos baços e extasiados parados nas órbitas e pensou: “ cheguei” - depois de tantos anos, meses , dias de tensões reprimidas e de vontade de fugir.  Saíra de casa tão somente com um saco feito à pressa e com Nini - a gata – companheira da sua solidão, da vida refreada, confidente dos sofridos ais – calados – após as violações. Estava, agora, livre. O medo que sentia era diferente dos outros medos de ter medo; avançou, procurando um refúgio. Na entrada do prédio Wellington viu como seu o recanto que a poderia acolher. Nini cravou-lhe as unhas aguçadas no casaco, como que alertando-a para um perigo. A jovem acalmou-a: era apenas um transeunte que vagueava em direção a parte incerta – como elas. A madrugada começava a arrefecer e o estômago ronronava em simultâneo com Nini. Antes de fazer o seu ninho decidiu andar um pouco mais na esperança de encontrar um café aberto para poder saciar-se a ela e à gata. E encontrou. Pediu um copo de leite e dividiu-o com a sua companheira e regressaram.
Nini voltou a ficar inquieta e voltou a ser acariciada. Nini não parou e (desta vez) rasgou o casaco da dona, deixando sair um fio de sangue. O transeunte seguia-as. Alice acelerou o passo e o transeunte, também. Correu e o transeunte, também. Alice aconchegou Nini no seu peito e parou. O transeunte aconchegou a sua máquina e parou, também. Nini olhou e o transeunte disparou. O flash iluminou e a câmara guardou Alice com o seu saco às costas e com Nini no regaço. Numa cidade iluminada apenas pelos néon das lojas. 
Foto de Bruce Davidson

domingo, 20 de abril de 2014


Um sono  alvoroçado com intermitências de salpicos de chuva e melodias. Petra
sentiu o seu corpo sair de si.  A silhueta do dono do casaco e do chapéu ondulava em passo artístico em  direção a uma mulher que se lhe insinuava na penumbra.
O esforço dos músicos – que tocavam há mais de três dias – começava a fraquejar, mas de súbito curvaram-se ante a cena.
A mulher - cuja sombra se refletia na parede do prédio - baloiçava os braços em torno do corpo; as pernas entreabriam-se num gemido faminto e a silhueta entrou a seu pedido. A música despertou e em tons silenciosos foi acompanhando aquela dança na expectativa de saborear o momento de um coito turbulento, exímio.
Os tons silenciosos misturaram-se em tons graves a agudos. A mulher e a silhueta  envolviam as suas formas numa só – encaixavam-se. Os sussurros - cada vez mais altos e comprimidos – esfaqueavam o silêncio da noite. Os corpos, molhados e exaustos pela luxúria da música, separaram-se no momento do clímax: o último grito, a última nota.

(continuação do conto "A estranha vida de Petra)
Petra-Jordan Photos- National Geographic

COISAS QUE APRENDI QUANDO JÁ ERA TARDE DEMAIS
Quando foste embora não suportei.
O meu rosto ficou marcado com sulcos da passagem  de tantas lágrimas. Não suportei.
Não suportei porque achei que era tarde demais para voltar a ter-te nos meus braços. As noites e os dias passavam em horas infindáveis e o meu sufoco não se deixava soltar. Não suportei, não suportava, não suporto: é tarde demais para voltar amar. Não te Julgavas uma mulher fria, controladora de  todas as emoções pois quando me aproximava o teu corpo de aromas sensuais deixavam-me louco e tu envolvias-te em mim, como uma criança que precisa de colo. Não suportei quando, naquele dia,  entrei no teu consultório e me  apercebi que tudo aquilo que me dizias no segredo dos lençóis estava a ser repetido num sofá, num embrulhar de corpos, em ais de êxtase. A minha timidez impediu-me de avançar e dizer-te aquilo que senti, naquele momento.
Já passaram três anos. Hoje, escrevo  para te relembrar os nossos dias e noites de mentira. Quero dizer-te que aprendi a não te saborear, a não respirar o teu cheiro, a não ter fome e sede de ti. Aprendi a viver com outros aromas, outros corpos, outros ais, outros lençóis.