sábado, 14 de junho de 2014
DESAFIO XXXI - O meu estado de alma
Quando entrei e te vi o meu coração disparou, sem sossego, durante segundos que pareceram uma vida inteira. Na penumbra da sala, entre os cortinados esvoaçantes, entrava uma luz ténue de uma lua surpreendida – como eu – Os pés iniciaram, a medo, uma investida até ti. Quanto mais me aproximava mais tu te afastavas. O ritmo da minha marcha tornou-se estático, na esperança que a tua presença não desaparecesse. E a lua que não parava de espreitar! Parecia querer ser testemunha do nosso reencontro. Parada, em êxtase, recebi-te de alma aberta. Sabia que era por pouco tempo, mas não quis perder-te, mais uma vez. E deixei que te apoderasses do meu corpo e que rebolasses nos trajetos mais íntimos do meu ser. E senti-te. Muito perto. Tão perto que te ouvia sussurrar todas as palavras de amor que há muito não ouvia. E quando me preparava para te devolver as minhas carícias, a lua escondeu-se nas nuvens e tu desapareceste com ela. Nem imaginas o meu estado de alma!
domingo, 8 de junho de 2014
Texto baseado num Nome.
Henrique Guerreiro
Maria e Antero desejavam um filho a todo o custo. Um dia,
pela aurora, um choro apagado ecoou pela viela, ladeada de roseiras, e os
pirilampos que nelas estavam poisados esconderam-se, assustados com tal som
nunca ouvido naquela planície, naquela viela, naquela casita.
Uma criatura, enfezada, que mais parecia um coelhinho,
disparou do ventre de Maria. Antero amparou – o e, trémulo, amedrontado, aconchegou-o ao seu peito. Maria
sorriu, pôs de fora o seio e
alimentou-o, enquanto Antero pensava num nome a dar àquele, há tanto esperado.
“-Henrique! Sim, vai chamar-se Henrique. Henrique Guerreiro!” E Henrique
Guerreiro ficou.
O rapaz foi crescendo e fortalecendo e tornou-se um belo
homem: olhos rasgados da cor do mar que desaguavam numa pele trigueira e no
peito oferecia um coração a todos. Antero e Maria envelheciam embevecidos com o
seu menino. Menino que guerreou com a morte que aos seis anos o quis levar, depois de uma febre de um
mês, de uma doença maldita, de uma pequena vida sem esperança – dizia o médico.
“Henrique Guerreiro, o nosso filho, Maria! Olha para ele. O nome foi bem
escolhido. Henrique, um rei e Guerreiro, um lutador!”
Maria suspirou e apoiou a sua cabeça no ombro de Antero.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
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TEXTO BASEADO NA FOTO DE BRUCE DAVIDSON
O autocarro parou, vomitando corpos nauseabundos e sonâmbulos que rapidamente desapareceram no meio da cidade deserta, iluminada pelos néon das lojas . A última passageira desceu lentamente, a medo, pousando um pé, de cada vez, no asfalto negro, olhos baços e extasiados parados nas órbitas e pensou: “ cheguei” - depois de tantos anos, meses , dias de tensões reprimidas e de vontade de fugir. Saíra de casa tão somente com um saco feito à pressa e com Nini - a gata – companheira da sua solidão, da vida refreada, confidente dos sofridos ais – calados – após as violações. Estava, agora, livre. O medo que sentia era diferente dos outros medos de ter medo; avançou, procurando um refúgio. Na entrada do prédio Wellington viu como seu o recanto que a poderia acolher. Nini cravou-lhe as unhas aguçadas no casaco, como que alertando-a para um perigo. A jovem acalmou-a: era apenas um transeunte que vagueava em direção a parte incerta – como elas. A madrugada começava a arrefecer e o estômago ronronava em simultâneo com Nini. Antes de fazer o seu ninho decidiu andar um pouco mais na esperança de encontrar um café aberto para poder saciar-se a ela e à gata. E encontrou. Pediu um copo de leite e dividiu-o com a sua companheira e regressaram.
TEXTO BASEADO NA FOTO DE BRUCE DAVIDSON
O autocarro parou, vomitando corpos nauseabundos e sonâmbulos que rapidamente desapareceram no meio da cidade deserta, iluminada pelos néon das lojas . A última passageira desceu lentamente, a medo, pousando um pé, de cada vez, no asfalto negro, olhos baços e extasiados parados nas órbitas e pensou: “ cheguei” - depois de tantos anos, meses , dias de tensões reprimidas e de vontade de fugir. Saíra de casa tão somente com um saco feito à pressa e com Nini - a gata – companheira da sua solidão, da vida refreada, confidente dos sofridos ais – calados – após as violações. Estava, agora, livre. O medo que sentia era diferente dos outros medos de ter medo; avançou, procurando um refúgio. Na entrada do prédio Wellington viu como seu o recanto que a poderia acolher. Nini cravou-lhe as unhas aguçadas no casaco, como que alertando-a para um perigo. A jovem acalmou-a: era apenas um transeunte que vagueava em direção a parte incerta – como elas. A madrugada começava a arrefecer e o estômago ronronava em simultâneo com Nini. Antes de fazer o seu ninho decidiu andar um pouco mais na esperança de encontrar um café aberto para poder saciar-se a ela e à gata. E encontrou. Pediu um copo de leite e dividiu-o com a sua companheira e regressaram.
Nini voltou a ficar inquieta e voltou a ser acariciada. Nini
não parou e (desta vez) rasgou o casaco da dona, deixando sair um fio de
sangue. O transeunte seguia-as. Alice acelerou o passo e o transeunte, também. Correu e o transeunte, também. Alice aconchegou Nini no seu peito e
parou. O transeunte aconchegou a sua máquina e parou, também. Nini olhou e o
transeunte disparou. O flash iluminou e a câmara guardou Alice com o seu saco
às costas e com Nini no regaço. Numa cidade iluminada apenas pelos néon das
lojas.
domingo, 20 de abril de 2014
Um
sono alvoroçado com intermitências
de salpicos de chuva e melodias. Petra
sentiu
o seu corpo sair de si. A silhueta
do dono do casaco e do chapéu ondulava em passo artístico em direção a uma mulher que se lhe insinuava
na penumbra.
O
esforço dos músicos – que tocavam há mais de três dias – começava a fraquejar,
mas de súbito curvaram-se ante a cena.
A
mulher - cuja sombra se refletia na parede do prédio - baloiçava os braços em
torno do corpo; as pernas entreabriam-se num gemido faminto e a silhueta entrou
a seu pedido. A música despertou e em tons silenciosos foi acompanhando aquela
dança na expectativa de saborear o momento de um coito turbulento, exímio.
Os
tons silenciosos misturaram-se em tons graves a agudos. A mulher e a silhueta envolviam as suas formas numa só –
encaixavam-se. Os sussurros - cada vez mais altos e comprimidos – esfaqueavam o
silêncio da noite. Os corpos, molhados e exaustos pela luxúria da música,
separaram-se no momento do clímax: o último grito, a última nota.
COISAS QUE APRENDI QUANDO JÁ ERA
TARDE DEMAIS
Quando foste embora não suportei.
O meu rosto ficou marcado com
sulcos da passagem de tantas
lágrimas. Não suportei.
Não suportei porque achei que era
tarde demais para voltar a ter-te nos meus braços. As noites e os dias passavam
em horas infindáveis e o meu sufoco não se deixava soltar. Não suportei, não
suportava, não suporto: é tarde demais para voltar amar. Não te Julgavas uma mulher
fria, controladora de todas as
emoções pois quando me aproximava o teu corpo de aromas sensuais deixavam-me
louco e tu envolvias-te em mim, como uma criança que precisa de colo. Não
suportei quando, naquele dia,
entrei no teu consultório e me
apercebi que tudo aquilo que me dizias no segredo dos lençóis estava a
ser repetido num sofá, num embrulhar de corpos, em ais de êxtase. A minha timidez
impediu-me de avançar e dizer-te aquilo que senti, naquele momento.
Já passaram três anos. Hoje,
escrevo para te relembrar os
nossos dias e noites de mentira. Quero dizer-te que aprendi a não te saborear,
a não respirar o teu cheiro, a não ter fome e sede de ti. Aprendi a viver com
outros aromas, outros corpos, outros ais, outros lençóis.
De tempos a tempos – na cama – um braço estende-se na
procura de um corpo há muito conhecido. A procura cai no vazio. O braço
regressa ao encontro do outro e entrelaçam-se comprimindo um peito ofegante e
um suspiro de certeza.
A madrugada aparece acompanhada do marido que entra na
cama devagar. E procura, ele, também. A procura cai no vazio. O vazio não
consegue perdoar.
Arménia Madail, in Desafios
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