quinta-feira, 8 de maio de 2014

Foto de Bruce Davidson

domingo, 20 de abril de 2014


Um sono  alvoroçado com intermitências de salpicos de chuva e melodias. Petra
sentiu o seu corpo sair de si.  A silhueta do dono do casaco e do chapéu ondulava em passo artístico em  direção a uma mulher que se lhe insinuava na penumbra.
O esforço dos músicos – que tocavam há mais de três dias – começava a fraquejar, mas de súbito curvaram-se ante a cena.
A mulher - cuja sombra se refletia na parede do prédio - baloiçava os braços em torno do corpo; as pernas entreabriam-se num gemido faminto e a silhueta entrou a seu pedido. A música despertou e em tons silenciosos foi acompanhando aquela dança na expectativa de saborear o momento de um coito turbulento, exímio.
Os tons silenciosos misturaram-se em tons graves a agudos. A mulher e a silhueta  envolviam as suas formas numa só – encaixavam-se. Os sussurros - cada vez mais altos e comprimidos – esfaqueavam o silêncio da noite. Os corpos, molhados e exaustos pela luxúria da música, separaram-se no momento do clímax: o último grito, a última nota.

(continuação do conto "A estranha vida de Petra)
Petra-Jordan Photos- National Geographic

COISAS QUE APRENDI QUANDO JÁ ERA TARDE DEMAIS
Quando foste embora não suportei.
O meu rosto ficou marcado com sulcos da passagem  de tantas lágrimas. Não suportei.
Não suportei porque achei que era tarde demais para voltar a ter-te nos meus braços. As noites e os dias passavam em horas infindáveis e o meu sufoco não se deixava soltar. Não suportei, não suportava, não suporto: é tarde demais para voltar amar. Não te Julgavas uma mulher fria, controladora de  todas as emoções pois quando me aproximava o teu corpo de aromas sensuais deixavam-me louco e tu envolvias-te em mim, como uma criança que precisa de colo. Não suportei quando, naquele dia,  entrei no teu consultório e me  apercebi que tudo aquilo que me dizias no segredo dos lençóis estava a ser repetido num sofá, num embrulhar de corpos, em ais de êxtase. A minha timidez impediu-me de avançar e dizer-te aquilo que senti, naquele momento.
Já passaram três anos. Hoje, escrevo  para te relembrar os nossos dias e noites de mentira. Quero dizer-te que aprendi a não te saborear, a não respirar o teu cheiro, a não ter fome e sede de ti. Aprendi a viver com outros aromas, outros corpos, outros ais, outros lençóis.

De tempos a tempos – na cama – um braço estende-se na procura de um corpo há muito conhecido. A procura cai no vazio. O braço regressa ao encontro do outro e entrelaçam-se comprimindo um peito ofegante e um suspiro de certeza.
A madrugada aparece acompanhada do marido que entra na cama devagar. E procura, ele, também. A procura cai no vazio. O vazio não consegue perdoar.
Arménia Madail, in Desafios

domingo, 30 de março de 2014


Estávamos no ano de 1966.
A revolução, ainda, estava quente. Nesse verão, os dias e as noites sucediam-se em tertúlias sobre variados temas e a euforia de se querer viver tudo de uma só vez levava-nos ao impossível. O amor despertava em nossos adolescentes corpos que fervilhavam ao mais leve toque. E foi numa dessas noites  - já os copos  se haviam esvaziado e os nossos sentidos estavam inebriados e desinibidos – que a descoberta se fez. Dias, semanas, talvez um ou dois anos e a vida estudantil acabou. O regresso a casa naquele comboio que subia e descia socalcos deixava para trás a paisagem citadina levando-me a uma miragem verde e florida de uma aldeia , quase esquecida no meio do nada. Fechei o livro e concentrei-me naquela janela que salpicava de vez em quando quadros campestres há muito escondidos na minha memória. O coração partido de amor logo se colou e palpitou. Esquecera por algum tempo os anos passados e relembrei outros, ainda, mais longínquos: a ida para a escola – através dos carreiros – em dias de chuva, em dias de frio, em dias de sol. A merenda, no saquinho de linho, numa mão e a sacola dos livros na outra, a espera  e o encontros dos seis rapazes que me acompanhavam, todos os dias e lá mais à frente a Maria Rita juntava-se-nos e lá íamos.
Que pureza! É aqui que eu vou ficar.
O comboio começou a abrandar e parou na estação cheia de hortênsias – as mesmas – e eu saí.

terça-feira, 25 de março de 2014


Entrou dentro do perfume – aquele que usara no baile de finalistas – não se lembrava por que o fizera, mas agradou-lhe o aroma: alfazema. Saiu a correr -  pois estava atrasada para a entrevista – um pouco desconchavada dentro daqueles sapatos. O elevador estava à sua espera e rápido entrou no carro. Olhou-se ,uma vez mais, no espelho retrovisor: a maquilhagem estava perfeita. Acelerou e depressa chegou aos estúdios da televisão. O coração agitou-se dentro do peito quando se sentou em frente às câmaras. Ao seu lado estava o entrevistador que ao sentir, no ar, o aroma que procurava desde os seus dezoito anos invadiu o olhar daquela bela mulher que estava à sua frente. Tirou o cromo do bolso, cheirou-o. Dirigiu-se à miúda que, em tempos, também, o desafiara para um jogo de futebol e afastando-lhe os cabelos, beijou a sua orelha: era ela.

quarta-feira, 19 de março de 2014


Quando a primavera e as manhãs chegam, a janela do meu quarto abre-se de par em par. Hoje foi especial. Lá estava ele: o melro que se passeia de um lado para o outro, muito madrugador, a olhar as flores que timidamente vão despontando - , depenicando as migalhas e deitando um olhar de soslaio para mim. Bom DIA, PAI! Onde quer que estejas, sei que me visitas todos os dias!

 http://www.youtube.com/watch?v=9ZXjSK8efWk&feature=youtu.be