domingo, 30 de março de 2014


Estávamos no ano de 1966.
A revolução, ainda, estava quente. Nesse verão, os dias e as noites sucediam-se em tertúlias sobre variados temas e a euforia de se querer viver tudo de uma só vez levava-nos ao impossível. O amor despertava em nossos adolescentes corpos que fervilhavam ao mais leve toque. E foi numa dessas noites  - já os copos  se haviam esvaziado e os nossos sentidos estavam inebriados e desinibidos – que a descoberta se fez. Dias, semanas, talvez um ou dois anos e a vida estudantil acabou. O regresso a casa naquele comboio que subia e descia socalcos deixava para trás a paisagem citadina levando-me a uma miragem verde e florida de uma aldeia , quase esquecida no meio do nada. Fechei o livro e concentrei-me naquela janela que salpicava de vez em quando quadros campestres há muito escondidos na minha memória. O coração partido de amor logo se colou e palpitou. Esquecera por algum tempo os anos passados e relembrei outros, ainda, mais longínquos: a ida para a escola – através dos carreiros – em dias de chuva, em dias de frio, em dias de sol. A merenda, no saquinho de linho, numa mão e a sacola dos livros na outra, a espera  e o encontros dos seis rapazes que me acompanhavam, todos os dias e lá mais à frente a Maria Rita juntava-se-nos e lá íamos.
Que pureza! É aqui que eu vou ficar.
O comboio começou a abrandar e parou na estação cheia de hortênsias – as mesmas – e eu saí.

terça-feira, 25 de março de 2014


Entrou dentro do perfume – aquele que usara no baile de finalistas – não se lembrava por que o fizera, mas agradou-lhe o aroma: alfazema. Saiu a correr -  pois estava atrasada para a entrevista – um pouco desconchavada dentro daqueles sapatos. O elevador estava à sua espera e rápido entrou no carro. Olhou-se ,uma vez mais, no espelho retrovisor: a maquilhagem estava perfeita. Acelerou e depressa chegou aos estúdios da televisão. O coração agitou-se dentro do peito quando se sentou em frente às câmaras. Ao seu lado estava o entrevistador que ao sentir, no ar, o aroma que procurava desde os seus dezoito anos invadiu o olhar daquela bela mulher que estava à sua frente. Tirou o cromo do bolso, cheirou-o. Dirigiu-se à miúda que, em tempos, também, o desafiara para um jogo de futebol e afastando-lhe os cabelos, beijou a sua orelha: era ela.

quarta-feira, 19 de março de 2014


Quando a primavera e as manhãs chegam, a janela do meu quarto abre-se de par em par. Hoje foi especial. Lá estava ele: o melro que se passeia de um lado para o outro, muito madrugador, a olhar as flores que timidamente vão despontando - , depenicando as migalhas e deitando um olhar de soslaio para mim. Bom DIA, PAI! Onde quer que estejas, sei que me visitas todos os dias!

 http://www.youtube.com/watch?v=9ZXjSK8efWk&feature=youtu.be

terça-feira, 18 de março de 2014




_ Quanto daria para ter os lábios do  António aqui.
-        - Isso é impossível! Esquece.
Umas  mãos suaves taparam-lhe os olhos e uns lábios (bem conhecidos) colaram-se aos seus.




O senhor Fósforo andava irrequieto, pesaroso, impossível de aturar. A dona Lixa havia morrido há oito dias e o seu pesar já tinha sido ultrapassado pela vontade de fornicar. Ir à avenida não lhe traria grande alento: as doenças venéreas assustavam-no. Mas adorava fornicar! Tinham-lhe contado que havia um putbar na cidade e que era “limpinho”, com miúdas bonitas e estrangeiras: a ideia de usar raparigas escravizadas, também não lhe agradava. Mas adorava fornicar.
Passeava-se pela casa - irrequieto, pesaroso, impossível de aturar - para trás e para a frente, às voltas e sempre com vontade de fornicar.
A menina Pedra Pomes, vizinha de duas casas acima, era uma quarentona, solteira e como a vontade de fornicar não lhe passava - a ele - saiu decidido a bater-lhe à porta. E bateu. E ela abriu e ele agarrou-a e ela agarrou-o.  O senhor Fósforo saiu – nu - ensanguentado, sem pau. Dona Pedra cortou o mal pela raiz. O senhor Fósforo não pôde fornicar.

sábado, 15 de março de 2014

A terra remexera-se pela quarta vez. A fúria daquele tremor  arrastava tudo o que mexia, mas com um cuidado maternal: tinha que estar naquela ilha.
No imenso horizonte vislumbravam-se uns olhos ofuscantes, atentos à passagem de quem procura desesperadamente, entre ruínas e devastidão, um bem precioso. A corrida galopante e desenfreada continuou durante a noite e,  ferido no seu âmago, insistiu – mais uma vez – no desenterrar dos sentimentos: cravou as garras nas entranhas do solo, arrancou árvores, revolveu águas, vociferou sons indecifráveis... a loucura estava a apoderar-se dele e os olhos ocultos continuavam a seguir, atentamente, aquele farrapo  que tentava a todo o custo encontrar...encontrar. As forças extenuantes deixaram cair aquele ser corpulento levando a um quinto tremor e a um adormecimento intermitente. Ao desabrochar do dia -  quando a chuva limpou o odor da raiva e os olhos ofuscantes desapareceram, o urso bebé aconchegou-se à mãe.


quinta-feira, 13 de março de 2014


Seguia na estrada deserta a caminho do nada.
A discussão com Raquel tinha-o deixado desvairado:” não volto a cair nas suas mentiras”.
Ligou a rádio  e as notícias começaram a ser interrompidas pela tempestade que se aproximava, mas conseguiu ouvir :“ na rua (...) mulher encontrada morta (...) suspeito em fuga (...); “tempestade violenta obriga a grandes precauções (...) alerta amarelo para a cidade de Green (...).
Desligou o som e fez inversão de marcha: iria regressar a casa e iria enfrentar Raquel. Não podia deixar-se intimidar pelos encontros furtivos daquela mulher.
Iria pedir o divórcio.
E acelerou.