quarta-feira, 19 de março de 2014
Quando a primavera e as manhãs chegam, a janela do meu quarto abre-se de par em par. Hoje foi especial. Lá estava ele: o melro que se passeia de um lado para o outro, muito madrugador, a olhar as flores que timidamente vão despontando - , depenicando as migalhas e deitando um olhar de soslaio para mim. Bom DIA, PAI! Onde quer que estejas, sei que me visitas todos os dias!
http://www.youtube.com/watch?v=9ZXjSK8efWk&feature=youtu.be
terça-feira, 18 de março de 2014
O senhor Fósforo andava irrequieto, pesaroso, impossível de aturar. A
dona Lixa havia morrido há oito dias e o seu pesar já tinha sido ultrapassado
pela vontade de fornicar. Ir à avenida não lhe traria grande alento: as doenças
venéreas assustavam-no. Mas adorava fornicar! Tinham-lhe contado que havia um putbar
na cidade e que era “limpinho”, com miúdas bonitas e estrangeiras: a ideia de
usar raparigas escravizadas, também não lhe agradava. Mas adorava fornicar.
Passeava-se pela casa - irrequieto, pesaroso, impossível de aturar -
para trás e para a frente, às voltas e sempre com vontade de fornicar.
A menina Pedra Pomes, vizinha de duas casas acima, era uma quarentona,
solteira e como a vontade de fornicar não lhe passava - a ele - saiu decidido a
bater-lhe à porta. E bateu. E ela abriu e ele agarrou-a e ela agarrou-o. O senhor Fósforo saiu – nu -
ensanguentado, sem pau. Dona Pedra cortou o mal pela raiz. O senhor Fósforo não
pôde fornicar.
sábado, 15 de março de 2014
A terra remexera-se pela
quarta vez. A fúria daquele tremor
arrastava tudo o que mexia, mas com um cuidado maternal: tinha que estar
naquela ilha.
No imenso horizonte
vislumbravam-se uns olhos ofuscantes, atentos à passagem de quem procura
desesperadamente, entre ruínas e devastidão, um bem precioso. A corrida
galopante e desenfreada continuou durante a noite e, ferido no seu âmago, insistiu – mais uma vez – no
desenterrar dos sentimentos: cravou as garras nas entranhas do solo, arrancou
árvores, revolveu águas, vociferou sons indecifráveis... a loucura estava a
apoderar-se dele e os olhos ocultos continuavam a seguir, atentamente, aquele
farrapo que tentava a todo o custo
encontrar...encontrar. As forças extenuantes deixaram cair aquele ser
corpulento levando a um quinto tremor e a um adormecimento intermitente. Ao
desabrochar do dia - quando a
chuva limpou o odor da raiva e os olhos ofuscantes desapareceram, o urso bebé aconchegou-se
à mãe.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Seguia na estrada deserta a caminho do nada.
A discussão com Raquel tinha-o deixado
desvairado:” não volto a cair nas suas mentiras”.
Ligou a rádio e as notícias começaram a ser interrompidas pela tempestade que se
aproximava, mas conseguiu ouvir :“ na rua (...) mulher encontrada morta (...)
suspeito em fuga (...); “tempestade violenta obriga a grandes precauções (...)
alerta amarelo para a cidade de Green (...).
Desligou o som e fez inversão de marcha: iria
regressar a casa e iria enfrentar Raquel. Não podia deixar-se intimidar pelos
encontros furtivos daquela mulher.
Iria pedir o divórcio.
E acelerou.
-
Ainda estou no lugar etéreo em que o relógio precisa de corda? Não? Corda é
o que tem aquele instrumento musical que ondula na minha frente; a prancha
esbranquiçada que se ri do meu salto insinua-se à água azulada da piscina onde
eu espero que me venham recolher!
-
Mas que vês desse azul incolor?
-
Areias que se baloiçam; areias que se dirigem ao
fundo; areias que entram e saem do meu corpo: sentes? As sombras refletem-se no
líquido, as sombras dos contornos de uma guitarra, os repuxos que se atiram
desgarrados e, aquela escada do lado direito...lembras-te?
-
Como poderia esquecer? Foi por ela que subiu
aquela que me disse sim e a quem eu disse sim, também...
-
-Que melancolia! Por que está deserta esta
piscina?
-
Melancolia? Não. Sinto-me um herói, destemido e
corajoso, um mártir do amor. Os três guarda- sóis resguardam as cadeiras do
calor que eu exalo, que eu sonho. As quatro chaises longues estão despidas e
dormitam do meu lado esquerdo.
-
Estás de partida! Vais embora?
-
Não sei para onde vou. Este lugar está vedado e
tento sair pelas escadas do lado direito, mas as cordas flutuam
comigo...entrelaçam-me, amordaçam-me e não consigo recomeçar: o relógio parou e
a guitarra iniciou o choro.
- Que aconteceria?
- Queres saber? Salta e logo verás.
-Que pensas? Crês que não sou capaz? E é já! Aquele corpo
deixa-me excitado e sem medos.
- E lá vais tu!
- Este salto foi perfeito: acabei de ver a mulher que vai
dizer sim e à qual eu vou retribuir com um sim, também.
-Olha! Olha... saiu da água. A água cola-lhe o fato de banho
e deixa as suas formas chamarem-te. Vais?
- Siiiiim.
- ...?
- ...
- Então?
- Ela deixou e eu entrei: no seu corpo.
- E ela sabe?
- Não, ainda não. Deixei-me amar entre uma hora e outra e
deixei o relógio parar.
- Sim, já sei: parou no rescaldo da convalescença da VOSSA pequena
história: o primeiro encontro, o primeiro toque, o primeiro beijo.
- Oh! Meu Deus! Sei que está envolta numa penumbra de
loucura ao olhar-me neste novo mundo. Sei que espera por mim em cada suspiro,
em cada gesto, em cada pensamento, contudo não a quero.
- Pois, não queres que ela te siga, que te aquiete, que te chore. Queres o silêncio das suas palavras.
- Claro! O lugar onde estou é
etéreo e o relógio precisa de corda!- Pois, não queres que ela te siga, que te aquiete, que te chore. Queres o silêncio das suas palavras.
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