terça-feira, 18 de março de 2014


O senhor Fósforo andava irrequieto, pesaroso, impossível de aturar. A dona Lixa havia morrido há oito dias e o seu pesar já tinha sido ultrapassado pela vontade de fornicar. Ir à avenida não lhe traria grande alento: as doenças venéreas assustavam-no. Mas adorava fornicar! Tinham-lhe contado que havia um putbar na cidade e que era “limpinho”, com miúdas bonitas e estrangeiras: a ideia de usar raparigas escravizadas, também não lhe agradava. Mas adorava fornicar.
Passeava-se pela casa - irrequieto, pesaroso, impossível de aturar - para trás e para a frente, às voltas e sempre com vontade de fornicar.
A menina Pedra Pomes, vizinha de duas casas acima, era uma quarentona, solteira e como a vontade de fornicar não lhe passava - a ele - saiu decidido a bater-lhe à porta. E bateu. E ela abriu e ele agarrou-a e ela agarrou-o.  O senhor Fósforo saiu – nu - ensanguentado, sem pau. Dona Pedra cortou o mal pela raiz. O senhor Fósforo não pôde fornicar.

sábado, 15 de março de 2014

A terra remexera-se pela quarta vez. A fúria daquele tremor  arrastava tudo o que mexia, mas com um cuidado maternal: tinha que estar naquela ilha.
No imenso horizonte vislumbravam-se uns olhos ofuscantes, atentos à passagem de quem procura desesperadamente, entre ruínas e devastidão, um bem precioso. A corrida galopante e desenfreada continuou durante a noite e,  ferido no seu âmago, insistiu – mais uma vez – no desenterrar dos sentimentos: cravou as garras nas entranhas do solo, arrancou árvores, revolveu águas, vociferou sons indecifráveis... a loucura estava a apoderar-se dele e os olhos ocultos continuavam a seguir, atentamente, aquele farrapo  que tentava a todo o custo encontrar...encontrar. As forças extenuantes deixaram cair aquele ser corpulento levando a um quinto tremor e a um adormecimento intermitente. Ao desabrochar do dia -  quando a chuva limpou o odor da raiva e os olhos ofuscantes desapareceram, o urso bebé aconchegou-se à mãe.


quinta-feira, 13 de março de 2014


Seguia na estrada deserta a caminho do nada.
A discussão com Raquel tinha-o deixado desvairado:” não volto a cair nas suas mentiras”.
Ligou a rádio  e as notícias começaram a ser interrompidas pela tempestade que se aproximava, mas conseguiu ouvir :“ na rua (...) mulher encontrada morta (...) suspeito em fuga (...); “tempestade violenta obriga a grandes precauções (...) alerta amarelo para a cidade de Green (...).
Desligou o som e fez inversão de marcha: iria regressar a casa e iria enfrentar Raquel. Não podia deixar-se intimidar pelos encontros furtivos daquela mulher.
Iria pedir o divórcio.
E acelerou.


-       Ainda estou no lugar etéreo em que  o relógio precisa de corda? Não? Corda é o que tem aquele instrumento musical que ondula na minha frente; a prancha esbranquiçada que se ri do meu salto insinua-se à água azulada da piscina onde eu espero que me venham recolher!
-       Mas que vês desse azul incolor?
-       Areias que se baloiçam; areias que se dirigem ao fundo; areias que entram e saem do meu corpo: sentes? As sombras refletem-se no líquido, as sombras dos contornos de uma guitarra, os repuxos que se atiram desgarrados e, aquela escada do lado direito...lembras-te?
-       Como poderia esquecer? Foi por ela que subiu aquela que me disse sim e a quem eu disse sim, também...
-       -Que melancolia! Por que está deserta esta piscina?
-       Melancolia? Não. Sinto-me um herói, destemido e corajoso, um mártir do amor. Os três guarda- sóis resguardam as cadeiras do calor que eu exalo, que eu sonho. As quatro chaises longues estão despidas e dormitam do meu lado esquerdo.
-       Estás de partida! Vais embora?
-       Não sei para onde vou. Este lugar está vedado e tento sair pelas escadas do lado direito, mas as cordas flutuam comigo...entrelaçam-me, amordaçam-me e não consigo recomeçar: o relógio parou e a guitarra iniciou o choro.



- Que aconteceria?
- Queres saber? Salta e logo verás.
-Que pensas? Crês que não sou capaz? E é já! Aquele corpo deixa-me excitado e sem medos.
- E lá vais tu!
- Este salto foi perfeito: acabei de ver a mulher que vai dizer sim e à qual eu vou retribuir com um sim, também.
-Olha! Olha... saiu da água. A água cola-lhe o fato de banho e deixa as suas formas chamarem-te. Vais?
- Siiiiim.
- ...?  
- ...
- Então?
- Ela deixou e eu entrei: no seu corpo.
- E ela sabe?
- Não, ainda não. Deixei-me amar entre uma hora e outra e deixei o relógio parar.
- Sim, já sei: parou no rescaldo da convalescença da VOSSA pequena história: o primeiro encontro, o primeiro toque, o primeiro beijo.
- Oh! Meu Deus! Sei que está envolta numa penumbra de loucura ao olhar-me neste novo mundo. Sei que espera por mim em cada suspiro, em cada gesto, em cada pensamento, contudo não a quero.
- Pois, não queres que ela te siga, que te aquiete, que te chore. Queres o silêncio das suas palavras.
- Claro! O lugar onde estou é etéreo e o relógio precisa de corda!

E se… eu dissesse que sim a esse teu corpo insinuante e tu dissesses que sim, também? E se…eu dissesse que sim ao virar de uma folha da minha vida e tu dissesses que sim, também?
Esta transbordante efusão sentimental de um eu que não sou eu deixa-me inquieto – inquietude calma e vazia; inquietude vazia e cheia de tudo. E se eu dissesse que sim e tu dissesses sim, também?
Esse teu corpo insinuante e cândido - que transparece na água límpida - deixa-me enlouquecido; enlouquecido de certezas e incertezas; enlouquecido de verdades e inverdades. E se eu dissesse que sim e tu dissesses que sim, também?
As braçadas bem coordenadas com essas pernas, excitam-me. E se… eu saltasse e tu dissesses que sim? E se… eu dissesse que sim também? Que aconteceria?
 

domingo, 9 de março de 2014


… numa noite envolta num véu esbranquiçado e enquanto a aldeia dormia, o circo montou a tenda no adro da igreja.
A menina que, ainda, estudava junto da janela do seu quarto - que dava para a praça - , ouviu um sussurro; descansou o seu lápis e borracha ao lado do caderno de exercícios; seguiu o som - vindo da rua - e espreitou pelas vidraças embaciadas. Não quis acreditar no que via: silenciosamente movimentavam-se sombras fantasmagóricas, numa azáfama intranquila. A rapariga de corpo esquelético corria de um lado para o outro levando e trazendo uns papéis coloridos; o homem de barba azul namorava a mulher sapo e combinavam os truques que iriam fazer desaparecer os lenços; o senhor das pombas adormeceu no meio do treino do ilusionismo e, eu a menina de olhos sedentos de curiosidade, adormeci tranquilamente… a noite seguinte seria uma noite inesquecível! Os saltimbancos e... e.. os palhaços estão na aldeia…
E fui - na noite seguinte - ver. E surpreendeu-me: aqueles olhos brilhantes como estrelas no céu, aquele fato esfarrapado e remendado, aqueles longos sapatos de múltiplas cores, aquele nariz vermelho e as travessuras. E surpreendeu-me e surpreende-me - ainda hoje - aquela figura que faz rir e que quando despe a sua personagem chora as suas perdas; sofre a solidão; sente a sua timidez; acolhe com um sorriso os escárnios; segue - melancolicamente - as pessoas que recolhem a suas casas; sente as mãos tremer; o coração pular quando vê crianças nos recreios prontas a voltar à sala de aula: "como gostaria de saber ler e escrever." Um dia – talvez!