quinta-feira, 13 de março de 2014


-       Ainda estou no lugar etéreo em que  o relógio precisa de corda? Não? Corda é o que tem aquele instrumento musical que ondula na minha frente; a prancha esbranquiçada que se ri do meu salto insinua-se à água azulada da piscina onde eu espero que me venham recolher!
-       Mas que vês desse azul incolor?
-       Areias que se baloiçam; areias que se dirigem ao fundo; areias que entram e saem do meu corpo: sentes? As sombras refletem-se no líquido, as sombras dos contornos de uma guitarra, os repuxos que se atiram desgarrados e, aquela escada do lado direito...lembras-te?
-       Como poderia esquecer? Foi por ela que subiu aquela que me disse sim e a quem eu disse sim, também...
-       -Que melancolia! Por que está deserta esta piscina?
-       Melancolia? Não. Sinto-me um herói, destemido e corajoso, um mártir do amor. Os três guarda- sóis resguardam as cadeiras do calor que eu exalo, que eu sonho. As quatro chaises longues estão despidas e dormitam do meu lado esquerdo.
-       Estás de partida! Vais embora?
-       Não sei para onde vou. Este lugar está vedado e tento sair pelas escadas do lado direito, mas as cordas flutuam comigo...entrelaçam-me, amordaçam-me e não consigo recomeçar: o relógio parou e a guitarra iniciou o choro.



- Que aconteceria?
- Queres saber? Salta e logo verás.
-Que pensas? Crês que não sou capaz? E é já! Aquele corpo deixa-me excitado e sem medos.
- E lá vais tu!
- Este salto foi perfeito: acabei de ver a mulher que vai dizer sim e à qual eu vou retribuir com um sim, também.
-Olha! Olha... saiu da água. A água cola-lhe o fato de banho e deixa as suas formas chamarem-te. Vais?
- Siiiiim.
- ...?  
- ...
- Então?
- Ela deixou e eu entrei: no seu corpo.
- E ela sabe?
- Não, ainda não. Deixei-me amar entre uma hora e outra e deixei o relógio parar.
- Sim, já sei: parou no rescaldo da convalescença da VOSSA pequena história: o primeiro encontro, o primeiro toque, o primeiro beijo.
- Oh! Meu Deus! Sei que está envolta numa penumbra de loucura ao olhar-me neste novo mundo. Sei que espera por mim em cada suspiro, em cada gesto, em cada pensamento, contudo não a quero.
- Pois, não queres que ela te siga, que te aquiete, que te chore. Queres o silêncio das suas palavras.
- Claro! O lugar onde estou é etéreo e o relógio precisa de corda!

E se… eu dissesse que sim a esse teu corpo insinuante e tu dissesses que sim, também? E se…eu dissesse que sim ao virar de uma folha da minha vida e tu dissesses que sim, também?
Esta transbordante efusão sentimental de um eu que não sou eu deixa-me inquieto – inquietude calma e vazia; inquietude vazia e cheia de tudo. E se eu dissesse que sim e tu dissesses sim, também?
Esse teu corpo insinuante e cândido - que transparece na água límpida - deixa-me enlouquecido; enlouquecido de certezas e incertezas; enlouquecido de verdades e inverdades. E se eu dissesse que sim e tu dissesses que sim, também?
As braçadas bem coordenadas com essas pernas, excitam-me. E se… eu saltasse e tu dissesses que sim? E se… eu dissesse que sim também? Que aconteceria?
 

domingo, 9 de março de 2014


… numa noite envolta num véu esbranquiçado e enquanto a aldeia dormia, o circo montou a tenda no adro da igreja.
A menina que, ainda, estudava junto da janela do seu quarto - que dava para a praça - , ouviu um sussurro; descansou o seu lápis e borracha ao lado do caderno de exercícios; seguiu o som - vindo da rua - e espreitou pelas vidraças embaciadas. Não quis acreditar no que via: silenciosamente movimentavam-se sombras fantasmagóricas, numa azáfama intranquila. A rapariga de corpo esquelético corria de um lado para o outro levando e trazendo uns papéis coloridos; o homem de barba azul namorava a mulher sapo e combinavam os truques que iriam fazer desaparecer os lenços; o senhor das pombas adormeceu no meio do treino do ilusionismo e, eu a menina de olhos sedentos de curiosidade, adormeci tranquilamente… a noite seguinte seria uma noite inesquecível! Os saltimbancos e... e.. os palhaços estão na aldeia…
E fui - na noite seguinte - ver. E surpreendeu-me: aqueles olhos brilhantes como estrelas no céu, aquele fato esfarrapado e remendado, aqueles longos sapatos de múltiplas cores, aquele nariz vermelho e as travessuras. E surpreendeu-me e surpreende-me - ainda hoje - aquela figura que faz rir e que quando despe a sua personagem chora as suas perdas; sofre a solidão; sente a sua timidez; acolhe com um sorriso os escárnios; segue - melancolicamente - as pessoas que recolhem a suas casas; sente as mãos tremer; o coração pular quando vê crianças nos recreios prontas a voltar à sala de aula: "como gostaria de saber ler e escrever." Um dia – talvez!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Desafio XXI:"Cemitério das palavras perdidas" 28 de fevereiro de 2014

As palavras... as palavras nasceram do namoro das letras. Namoro difícil, namoro de angústias, lamentos, de alegrias, de arremessos emotivos e diabólicos; palavras inventadas; palavras encontradas; palavras... palavras...
Quando as promessas de amor iniciam o seu percurso: usam-se as palavras; quando o mar se revolve nas dunas: usam-se as palavras; quando o céu se enternece: usam-se as palavras; quando a natureza abraça o sol e repudia o trovão: usam-se as palavras. São tantas e tão belas; são pequenas e tão grandes e são grandes e tão pequenas. No fundo estão todas elas no mais íntimo de todos nós e, esse, será o mais belo esconderijo onde se podem perder na valsa doce e amarga da mente e espreitar o cemitério onde estão guardadas e sempre prontas a sair.

Arménia Madail, in Desafios

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014


Uma brisa subiu-lhe até à cúspide do corpo.  A vida escorregava-lhe pelo corpo abaixo e abandonava-a – como a sombra que deixou pra trás esse corpo – e ficou na mais perfeita solidão.  Joana  relembrou aquela memória da juventude que, inesperadamente, lhe entrara pela vida adentro umas horas antes:  aquele respirar  ofegante -  o dia em que o beijo inocente dos seus dez anos mudou por completo  a sua vida. Casara com João : pensava em Luís!
Quando Antero - agora com dezoito anos – entrou na penumbra da sala, Joana sentiu uma culpa dolorosa. Os olhos verdes de Antero emanavam o verde daquela tarde insaciável : o passeio com Luís; o desabrochar de uma flor -  indecisa: avançar ou recuar? Este filho, de estatura atlética, de ar doce não a  deixa esquecer. A dor aperta-lhe o coração e a voz sai-lhe sumida:
-Esquece o que perguntei, filho. As violetas entontecem-me: o cheiro impregna-se na minha pele; nos meus sentidos e leva-me ao passado.
 As mãos carinhosas de Antero pousaram nos cabelos de Joana e afagaram-nos:
-        Mãe, que te atormenta? O pai já partiu há muito: lembras-te? Que segredo guarda a carta que tanto esmagas - no peito?






Estava ainda de camisa de noite, com restos de pétalas vermelhas  espalhadas pelos cabelos – a esbranquiçar – e cheiro a jasmim, quando se lembrou daqueles olhos verdejantes (a fixarem os seus) e um rio de lágrimas indubitáveis a inundar  aquele rosto esquelético – homem da sua vida.
A noite tinha-lhe sido dedicada.
À luz de um velho candelabro, deixou escorregar o vestido.
A morte iminente daquele ser tinha direito ao seu corpo decrépito, enrugado mas emanando frescura – caiu  na cama.
As mãos – outrora – brancas e esguias – hoje (ontem) trémulas acariciaram um corpo triste. O vento entrou – calado – no quarto e roubou o último suspiro.