quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014


 
 
 
Acordamos, nas ondas verdejantes, na procura da voluptuosidade, que nos dirige à brisa dos aromas e, quando, pousamos na pétala de uma qualquer flor, eis que o pólen nos embriaga com a sua fecundação de odores, sabores e sensações.








  Rasguem o peito e desabrochem para a luxúria do vosso eu. Verão o quão deleitoso é exprimir as emoções do calado AMOR que permanece na penumbra dos corações (vazados pela indiferença). A realidade sonhada é a realidade vivida






Acordei… (daquele etéreo sono)  com uma paz de espírito – será paz?- O sorriso tenta apoderar-se de mim ao mesmo tempo que o meu amor vai desaparecendo, deixando o meu corpo em descanso. Deixei de te amar. E agora?
Levanto-me decidida a não mais carpir, a não mais sentir, a não mais implorar! Quero erguer uma muralha entre mim e ti!
E caminho nas pedras rugosas da vida em direção à espuma – espuma esponjosa – que absorve todas as minhas amarguras, as minhas dúvidas, as minhas certezas incertas. Quero cair no abismo de outros braços, rebolar nas linhas curvas de outro corpo, mergulhar nas pupilas de outro olhar, inebriar-me de amor! Foi por tudo isto que o sorriso se apoderou de mim.








Porque hoje é sábado - sim, sábado – e porque amanheceu – chuvoso -  vou definhar nas recordações (inevitáveis) do ontem. Relembro os passeios pela praia, as noites de luar, os banhos de mar, os jantares no alpendre e, sobretudo, o dormir entrelaçado na rede que existia entre os dois choupos no nosso quintal! Existia! Já não existe. Arrancaste-a e eu queimei-a e com ela queimei as minhas emoções. Tudo isto é incrível! Um raio de sol rompeu o céu e entrou desastrosamente pela janela e acordei…






 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014


Eis que me deparo com as minhas incertezas – aquelas que eu julgava terem emigrado para as margens do limbo - . Que fazer? Dei voltas e mais voltas, rodopiei junto do teu coração (queria uma vez mais cativá-lo) na certeza da incerteza de o poder arrancar do teu peito. Rasgar toda a tua pele na míngua de um pouquinho do teu amor. A carapaça endurecida e indiferente aos meus intranquilos impulsos ficou intacta num suspiráculo e eu deixei-me desvanecer…
















 
Hoje – só hoje -! Quero procurar entre a bruma o teu odor… quero saber onde está a tua outra face (aquela que escondes) , aquela que eu recordo das noites e dos dias e dos meses e dos anos que nos olhávamos e não precisávamos de falar. Aquela face – a que escondes – mas que eu teimo em querer ver! Ver…Eu intui mas não quis acreditar! Partiste e contigo foi o meu amor.










Recordo quanto tempo amei - nesse passado longínquo  - o teu singelo olhar enigmático; hoje, recordo e quero acreditar: eras um sonho; a outra face do amor. Sim, o teu corpo indelével a querer entranhar-se em mim – corpo descarnado: inerte.
A tua boca: segue procurando o impossível! As tuas pernas entrelaçadas, nas minhas, reclamam a posição excitante; a recusa constante da penetração – em sonho impossível – responde em sofrimento; a face oculta, será verdadeira?
Desfaleço finalmente (nos teus braços), deixo que me descubras – ávido de amor...
Vou, tu também, os nossos corpos colam. As entranhas sentem as gotas de suor, ouvem os gemidos, o pulsar intermitente; sonho, será isto um sonho, um desejo insuportável de algo mais – , desejo animalesco incapaz de parar – a procura total, o êxtase: este louco amor inolvidável: morreu comigo.

O amanhecer  da aldeia acorda-nos (quase sempre) com uma neblina. Esta vai-se esvanecendo deixando aparecer o Sol (inibido), trazendo com ele os melros, as poupas, os boieiros... Os cheiros da terra húmida ,elevando-se no ar, entram nas nossas narinas. O som das crianças cantarolando na ida para a escola ,faça chuva, faça sol, recordam ,todos os dias, que são horas de descer à cozinha. É na cozinha que os aromas se misturam e nos deixam entontecidos (o pão saído do forno, as compotas, a manteiga fresca) e ávidos de saborear aquelas iguarias campestres. São estas maravilhas que nos dão força. Força para arrostar o asfalto negro -  asfalto negro  que nos conduz à cidade grande (cheia de odores tão diferentes). Mas a certeza (pois pensamos sempre de modo positivo) de que voltaremos à aldeia, aos inebriantes  aromas, aos sons,  ao silêncio da natureza... enche-nos a alma. E ao fim do dia, regressamos para um novo amanhecer .



Entre a bruma, arrastei o meu corpo (ensanguentado pelos açoites) aos tropeções : as unhas enterravam-se - na terra húmida e lamacenta - sedentas de um abrigo; os cabelos desgrenhados prendiam-se nos ramos sedentos de vida. O meu correr  lento, compassado, intercalava com galopantes arremessos de fúria, ira.
Desespero, angústias, medos, alegrias, mimos e carícias jorravam das minhas entranhas embebidas de bílis. E a bruma aproximava-se, cada vez mais...no meu encalço. E as minhas pernas caíram nas teias das areias que devoravam vertiginosamente um corpo flagelado pela indiferença do HOMEM!
O GRITO fez eco, mas ninguém ouviu!